Por Dom Luiz Demétrio Valentini
O dia das eleições está chegando. Agora a decisão está nas mãos dos eleitores. O voto é soberano. Ele se constitui no fundamento da democracia. Todo o arcabouço jurídico que o protege tem a finalidade de garantir que ele seja, de fato, a expressão da vontade de cada eleitor. Por isto, o maior atentado contra a democracia é perverter o voto do eleitor, pela compra e venda, ou por qualquer outro expediente.
A sabedoria popular cunhou a afirmação contundente, e acertada: voto não tem preço, tem conseqüências!
A campanha eleitoral deveria fornecer elementos para os eleitores fazerem sua escolha, livremente, a partir das conclusões a que cada um chegar.
Quanto menos a campanha cumpre sua missão, maior a responsabilidade do eleitor. E´ o que se pode dizer da campanha deste ano. Por muitos motivos, ela deixou a desejar. Pouco contribuiu para o debate sereno, claro, objetivo, em torno de propostas de governo para o país. Ficou por demais carregada de ataques pessoais, em tentativas de desmoralizar os adversários.
Por isto, o eleitor tem algumas tarefas a mais, desta vez.
Em primeiro lugar, sacudir o clima de acusações e calúnias perversas e fantasiosas, lançadas não importa contra quem. Precisamos neutralizar estas tentativas de desestabilizar candidaturas com ataques pessoais e acusações infundadas. E´ necessário desencorajar seus autores. Caso contrário inviabilizamos a prática democrática em nosso país, incentivando os que se escondem no anonimato da internet para desferir seus golpes contra os desafetos de seus preconceitos. Contra o obscurantismo, nada melhor do que a lucidez e a coragem dos eleitores em livrar seu voto da asfixia de acusações gratuitas e injustas.
Urge também depurar as versões da grande mídia, que são no mínimo tendenciosas, para dizer pouco, e para deixar que cada eleitor imagine quais são os interesses que se escondem por trás destas posições veiculadas às vezes com rara virulência contra alguns candidatos. Formar a própria opinião, prescindindo das grandes manchetes, é tarefa difícil, mas não impossível para cidadãos maduros e adultos que queremos ser.
Como a campanha pouco ajudou para compreender o que está se passando em nossa realidade brasileira, nos últimos anos, cabe a nós fazer uma análise ponderada, com a lucidez de nosso bom senso, e conferir o que está no bom caminho, e o que seria possível melhorar. E então, com nosso voto sinalizar em quem depositamos nossa confiança para garantir que nossas expectativas possam, minimamente, se cumprir.
Para esta análise, não pode faltar uma referência às grandes desigualdades sociais que são a marca registrada de nosso país, e perceber como estão sendo enfrentadas. Com nosso voto, precisamos expressar nosso juízo de valor sobre o processo de superação de nossas mazelas sociais, que está em andamento, e dar nosso voto em favor das propostas apresentadas pelos candidatos, não as fantasiosas e irresponsáveis, mas as realistas e consistentes.
Esta campanha não vai deixar saudades para ninguém. Mas o voto tem o poder de redimir até uma campanha mal realizada. Afinal, a responsabilidade recai mesmo sobre cada eleitor. Quanto menos ele precisar de recomendações, melhor será o seu voto.
O ANALFABETO POLÍTICO
Bertold Brecht
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não houve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguél, do sapato e do remédio dependem das decisões política.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que de sua ignorancia política, nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e internacionais.
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não houve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguél, do sapato e do remédio dependem das decisões política.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil que de sua ignorancia política, nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e internacionais.
ESPERANÇA CAMPONESA
Frei Sergio Güerguen
A Esperança não é o resultado de uma espera, mas de uma luta. Esperança se constrói.
A desesperança foi uma marca na vida camponesa nos últimos anos no Brasil. A desgraça grassou a vida dos pobres do campo, sem amparo e sem horizontes.
Hoje reabrem-se horizontes de esperança.
A luta camponesa é a fonte desta nova esperança.
Os movimentos camponeses em luta são alicerces deste novo tempo.
Não será dado, tudo será conquistado.
Num mundo onde a natureza e a vida estão ameaçadas em suas raízes, os camponeses e a vida camponesa passam a ter um novo papel civilizatório.
Constituem-se no único sujeito coletivo da humanidade com história, tradição e conhecimento para produzir alimentos saudáveis e limpos e ao mesmo tempo cuidar e preservar a mãe natureza. E manter, criar, recriar espaços de convivência comunitária humanizadora alternativa ao caos instalado nas contradições urbanas desordenadas.
Aqui está, inclusive, o novo sentido da reforma agrária no século 21.
Terá que produzir alimentos com menos máquina, menos químicos e mais trabalho. Também nisto o mundo camponês é horizonte de esperança numa sociedade que extingue postos de trabalho. E trabalhar, numa perspectiva humanizada e humanizadora, dá sentido às existências pessoais e coletivas. No mundo camponês, o trabalho tem um sentido ético, é valor humano.
As razões da esperança estão na crise ambiental e social vivida pela humanidade. Só os séculos de sabedoria camponesa tem no seu baú reservas de saberes e experiências vitais capazes de responder aos desafios de alimentar a humanidade preservando os recursos naturais e convivendo em ambientes socialmente justos.
O Campesinato sempre esteve tecnologicamente atualizado ao longo da história da humanidade. As grandes revoluções tecnológicas na produção de alimentos sempre foram incorporadas contemporaneamente pelos camponeses. É só com a revolução verde, no último século, que se cria um descompasso brutal e a exclusão camponesa em massa.
Mas a revolução verde, mesmo em sua terceira fase, está entrando em obsolescência. É tecnologicamente atrasada pois não consegue responder a elementos essenciais como preservação ambiental, qualidade de vida e alimentos limpos e saudáveis.
A agroecologia está se legitimando como a nova grande síntese filosófica, científica, agronômica e tecnológica incorporando grandes contribuições das várias correntes de agricultura ecológica, desenvolvendo novos conhecimentos científicos, mas respeitando e se somando à sabedoria camponesa e indígena construída em 12 mil anos de produção de alimentos em convivência com a natureza.
A agroecologia é a nova ponta da tecnologia agrícola e ela só é possível de ser praticada por comunidades camponesas. É impossível a convivência entre Agroecologia e latifúndio, agroecologia e monopólios.
Aos poucos esta nova síntese científica será incorporada pelos Movimentos Camponeses em luta, perpassará as escolas de formação dos profissionais da produção de alimentos, será exigência dos consumidores, dará respostas aos problemas criados pela revolução verde, será o novo passo da cultura humana e da vida em sociedade.
Aí reside um dos pilares da esperança camponesa. Ela será necessária para toda a humanidade e não só para os camponeses.
Aí nasce a nova missão camponesa na sociedade. Produzir alimentos limpos e saudáveis. Cuidar e preservar a mãe natureza. Cuidar e preservar a água irmã. Cuidar e tratar bem a terra mãe. Equilibrar o ambiente de todos. Formar e preservar comunidades de convivência saudável. Construir ambientes socialmente justos. Construir famílias sem dominação de gênero nem de gerações.
Mas como a escravidão, embora execrável à consciência humana, não caiu por sí, foi preciso derruba-la, só Movimentos Sociais fortes, organizados e em luta poderão dar vida e corpo a esta esperança que brota da terra.
A luta é a principal fonte de abastecimento da esperança. Os camponeses brasileiros demonstram cada vez mais e em maior numero, disposição para a luta coletiva e organizada.
Por isto a convicção sempre maior: a esperança camponesa derrotará, na luta dura e árdua, o latifúndio e o modelo agrícola das corporações transnacionais.
E do ventre da terra renascerão todas as formas de vida e as condições para a vida feliz e harmoniosa da raça humana.
A Esperança não é o resultado de uma espera, mas de uma luta. Esperança se constrói.
A desesperança foi uma marca na vida camponesa nos últimos anos no Brasil. A desgraça grassou a vida dos pobres do campo, sem amparo e sem horizontes.
Hoje reabrem-se horizontes de esperança.
A luta camponesa é a fonte desta nova esperança.
Os movimentos camponeses em luta são alicerces deste novo tempo.
Não será dado, tudo será conquistado.
Num mundo onde a natureza e a vida estão ameaçadas em suas raízes, os camponeses e a vida camponesa passam a ter um novo papel civilizatório.
Constituem-se no único sujeito coletivo da humanidade com história, tradição e conhecimento para produzir alimentos saudáveis e limpos e ao mesmo tempo cuidar e preservar a mãe natureza. E manter, criar, recriar espaços de convivência comunitária humanizadora alternativa ao caos instalado nas contradições urbanas desordenadas.
Aqui está, inclusive, o novo sentido da reforma agrária no século 21.
Terá que produzir alimentos com menos máquina, menos químicos e mais trabalho. Também nisto o mundo camponês é horizonte de esperança numa sociedade que extingue postos de trabalho. E trabalhar, numa perspectiva humanizada e humanizadora, dá sentido às existências pessoais e coletivas. No mundo camponês, o trabalho tem um sentido ético, é valor humano.
As razões da esperança estão na crise ambiental e social vivida pela humanidade. Só os séculos de sabedoria camponesa tem no seu baú reservas de saberes e experiências vitais capazes de responder aos desafios de alimentar a humanidade preservando os recursos naturais e convivendo em ambientes socialmente justos.
O Campesinato sempre esteve tecnologicamente atualizado ao longo da história da humanidade. As grandes revoluções tecnológicas na produção de alimentos sempre foram incorporadas contemporaneamente pelos camponeses. É só com a revolução verde, no último século, que se cria um descompasso brutal e a exclusão camponesa em massa.
Mas a revolução verde, mesmo em sua terceira fase, está entrando em obsolescência. É tecnologicamente atrasada pois não consegue responder a elementos essenciais como preservação ambiental, qualidade de vida e alimentos limpos e saudáveis.
A agroecologia está se legitimando como a nova grande síntese filosófica, científica, agronômica e tecnológica incorporando grandes contribuições das várias correntes de agricultura ecológica, desenvolvendo novos conhecimentos científicos, mas respeitando e se somando à sabedoria camponesa e indígena construída em 12 mil anos de produção de alimentos em convivência com a natureza.
A agroecologia é a nova ponta da tecnologia agrícola e ela só é possível de ser praticada por comunidades camponesas. É impossível a convivência entre Agroecologia e latifúndio, agroecologia e monopólios.
Aos poucos esta nova síntese científica será incorporada pelos Movimentos Camponeses em luta, perpassará as escolas de formação dos profissionais da produção de alimentos, será exigência dos consumidores, dará respostas aos problemas criados pela revolução verde, será o novo passo da cultura humana e da vida em sociedade.
Aí reside um dos pilares da esperança camponesa. Ela será necessária para toda a humanidade e não só para os camponeses.
Aí nasce a nova missão camponesa na sociedade. Produzir alimentos limpos e saudáveis. Cuidar e preservar a mãe natureza. Cuidar e preservar a água irmã. Cuidar e tratar bem a terra mãe. Equilibrar o ambiente de todos. Formar e preservar comunidades de convivência saudável. Construir ambientes socialmente justos. Construir famílias sem dominação de gênero nem de gerações.
Mas como a escravidão, embora execrável à consciência humana, não caiu por sí, foi preciso derruba-la, só Movimentos Sociais fortes, organizados e em luta poderão dar vida e corpo a esta esperança que brota da terra.
A luta é a principal fonte de abastecimento da esperança. Os camponeses brasileiros demonstram cada vez mais e em maior numero, disposição para a luta coletiva e organizada.
Por isto a convicção sempre maior: a esperança camponesa derrotará, na luta dura e árdua, o latifúndio e o modelo agrícola das corporações transnacionais.
E do ventre da terra renascerão todas as formas de vida e as condições para a vida feliz e harmoniosa da raça humana.
A FÁBULA DA ÁGUIA E DA GALINHA
Era uma vez um camponês que foi na floresta vizinha apanhar um pássaro, a fim de mantê-lo cativo em casa. Conseguiu pegar o filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Cresceu como galinha.
Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: “Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.”
“De fato”, disse o homem. “é uma águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais águia”.
“Não,” retrucou o naturalista. “Ela é e sempre será uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.”
“Não,” insistiu o camponês. “Ela virou galinha e jamais voará como águia”.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a, disse: “já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra, então abra as suas asas e voe”.
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava destraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O Camponês contestou. “Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!”
“Não”, tornou a insistir o naturalista. “Ela é uma águia. E uma águia sempre será uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.”
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe: “águia, já que você é uma águia, abra as asas e voe”.
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou a carga. “Eu havia lhe dito, ela virou galinha”.
“Não”, respondeu firmemente o naturalista. “Ela é águia e possui sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.”
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para o alto de uma montanha. O sol estava nascendo e dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: “Águia, já que você é águia, já que você pertence ao céu e não a terra, abra as asas e voe!”
A águia olhou ao redor. Tremia, como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, de sorte que seus olhos pudessem se encher de claridade e ganhar as dimensões do vasto horizonte.
Foi quando ela abriu suas potentes asas. Ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto e voar cada vez mais para o alto. Voou. E nunca mais retornou.
Povos do Brasil ! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E nós ainda pensamos e somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias.
Por isso, irmãos e irmãs, abram suas asas e voem. Voem como águias, jamais se contentem com os grãos que lhes jogarem aos pés para ciscar.
Leonardo Boff, teologo, professor de ética na UERJ e escritor.
Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: “Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.”
“De fato”, disse o homem. “é uma águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais águia”.
“Não,” retrucou o naturalista. “Ela é e sempre será uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.”
“Não,” insistiu o camponês. “Ela virou galinha e jamais voará como águia”.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a, disse: “já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra, então abra as suas asas e voe”.
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava destraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O Camponês contestou. “Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!”
“Não”, tornou a insistir o naturalista. “Ela é uma águia. E uma águia sempre será uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.”
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe: “águia, já que você é uma águia, abra as asas e voe”.
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou a carga. “Eu havia lhe dito, ela virou galinha”.
“Não”, respondeu firmemente o naturalista. “Ela é águia e possui sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.”
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para o alto de uma montanha. O sol estava nascendo e dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: “Águia, já que você é águia, já que você pertence ao céu e não a terra, abra as asas e voe!”
A águia olhou ao redor. Tremia, como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, de sorte que seus olhos pudessem se encher de claridade e ganhar as dimensões do vasto horizonte.
Foi quando ela abriu suas potentes asas. Ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto e voar cada vez mais para o alto. Voou. E nunca mais retornou.
Povos do Brasil ! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E nós ainda pensamos e somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias.
Por isso, irmãos e irmãs, abram suas asas e voem. Voem como águias, jamais se contentem com os grãos que lhes jogarem aos pés para ciscar.
Leonardo Boff, teologo, professor de ética na UERJ e escritor.
A ofensiva do capital sobre a agricultura na América Latina
Domingos Marileo representante mapuche, iniciou a tarde de trabalhos do dia 13 de outubro no V Congresso da CLOC. “Para nós e por nossas futuras gerações temos a necessidade urgente de valorizar a nossa identidade. Somos os primeiros povos, somos filhos da madre terra. Em nossa condição de mapuche, mas também dividindo nossa condição com outros povos originários, temos que denunciar a opressão dos governos neoliberais, que também se mostra sobre os povos originários, eles usam recursos de poder para expropriar as terras dos nossos povos. Mesmo assim, somos um povo que resiste”, declarou ele. “Através da história podemos ver que o capital tenta invadir nosso território. Os mapuches temos vivido a forma mais cruel da opressão e expropriação, com isso temos tentado lutar por um projeto democrático. Cada dia que passa necessitamos mais de um projeto alternativo em todas as áreas, que confronte o modelo neoliberal e garanta a liberdade dos povos originários”, concluiu o representante mapuche.
Articulação latinoamericana frente aos grandes projetos
“Vamos construindo uma articulação continental que junte as forças frente aos inimigos comuns”, com essa ideia João Pedro Stedile, membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, iniciou sua fala que consistia em fazer um panorama da atual situação agrária na América Latina e do avanço do capital sobre essas terras.
Segundo João Pedro, em cada local o capital se comporta de forma distinta, porque o projeto do capital se constrói sobre bases naturais que se diferem de região para região, de país para país. Mas ele tem um plano geral de exploração e acumulação do lucros e riquezas, que permeia todo esse projeto. Um primeiro ponto a se destacar é que a maioria de nossos movimentos e a tradição que temos, é de que estes se formaram em um momento em que o capital industrial dominava. “Da década de 90 para cá, o capitalismo industrial está ingressando em uma nova etapa. Agora ele já não é dominado pelas fábricas, mas por um capitalismo financeiro, que é controlado pelos bancos e que também está articulado com os grandes grupos econômicos e comerciais. Temos percebido mudanças na forma que o capital chega ao campo. Não é mais o capital industrial que quer vender insumos ao produtor. Há um movimento mais amplo, que levou a tendências gerais que estão ocorrendo em todo o mundo, como a compra de ações de empresas que se transformaram em grandes conglomerados”, frisou João Pedro.
Com a derrota dos países socilaistas e com a economia capitalista fragilizada, organismos internacionais se transformaram em instrumentos de liberação de entrada de capital transnacional em nossos países latinoamericanos, de forma que o capital possa controlar nossas agriculturas, como no caso do FMI e do Banco Mundial. No Brasil, o setor capitalista gera, por ano, cerca 130 bilhões, mas consegue dos bancos perto de 100 bilhões. Ou seja, para gerar essa cifra ele necessita de um investimento quase similar. Segundo João Pedro, foi parte da estratégia dos governos neoliberais, também destruir as articulações e políticas públicas de produção do campo. Agora com governos progressistas no continente, se está tentando derrubar isso, e recompor políticas estatais de proteção aos camponeses.
Em 2008 se instalou uma crise do capital. Era um momento, depois de um período histórico de refluxo dos movimentos sociais latinoamericanos, de retomar e alavancar as lutas no continente. Entretanto, segundo Stedile, na América Latina somente os povos bolivianos estão em ascenso, lutando por políticas públicas nas ruas, junto à população. Em nenhum outro país se viu ou se vê isso. “O que passou em nosso continente é que as contradições do sistema acabaram fortalecendo a ocupação do capital sobre nossa produção agrícola. Em nosso continente tivemos um processo crescente de desnacionalização do nosso campo. Com isso, o capital se apropriou de terras, água, sementes, hidrelétricas, mineradoras, entre outras. Nossas economias não sofreram com a crise, claro, porque o capital correu para cá, para o continente latinoamericano e, com isso, a economia cresceu, mas foi um crescimento para os capitalistas”, destacou João Pedro.
A crise da reserva de petróleo chegou ao ponto de que as empresas petrolíferas e automobilísticas começaram a investir no chamado biocombustível, a quem a Via Campesina chama de agrocombustível, por considerar que essa produção não significa, de nenhuma forma, vida. No Brasil, em três anos, as empreas transnacionais desnacionalizaram 30% de toda a produção de cana de açúcar. A Cargill hoje, no Brasil, industrializa 12 milhões de toneladas de cana por ano. É mais do que toda a produção canavieira dos países do Caribe juntos. E essa é, segundo Stedile, uma proposta para todos os países.
Esses grandes capitais fazem, também, especulações nas bolsas de valores. Com isso, os produtos agrícolas padronizáveis, as chamadas commodities, vendem nas bolsas de mercadoria os alimentos primários produzidos no mundo. As grandes empresas, para proteger seu capital finaceiro, transformam esse dinheiro em títulos mercantis. Toda a safra de milho, trigo e soja, por exemplo, já está vendida até 2015.
Capitalismo e Estado
Como resultado da crise, o capitalismo, que até então não se importava com o Estado, pois considerva que o mercado controlava e resolvia tudo, passa a perceber que a saída que tinham para seus problemas era o próprio estado, pois ele é uma máquina de impostos. Os capitalistas agora, portanto, revalorizaram o estado. Por isso, voltaram a disputar os governos com os movimentos sociais e as alianças de esquerda. Isso fica claro nas tentativas de derrubar os governos progressistas no continente, como o de Rafael Correa, Evo Morales, Lula e outros, pois querem disputar dinheiro dentro do Estado.
Hoje, segundo Stedile, temos uma situação muito grave, pois mudou a classe dominante no campo e o principal controle das produções agrícolas no mundo, agora, está nas mãos das empresas trasnacionais e dos bancos, que estão atrelados a eles. Trinta empresas controlam toda a produção agrícola do mundo, quando não controlam fisicamente, controlam os preços. “O fundamental para eles é controlar os preços, é assim o mercado, inclusive nos países que antes eram exportadores de determinado produto. Tudo se está privatizando. No Brasil, a Nestlé tem uma ‘taxa de ganância’ maior vendendo água do que vendendo leite. Isso também está levando a uma padronização dos alimentos, e isso é um risco para a humanidade. Querem que todos os povos comam a mesma comida. Uma comida que não é saudável e que tem aumentado os casos de doenças e cancês no mundo, principalmente por causa dos agrotóxicos”, destacou Stedile.
O agronegocio veio com o monocultivo, para aumentar suas taxas de ganância. Necessitam, com isso, de máquinas agrícolas e não de mão de obra humana. Outra ponto a se destacar é que precisam sempre de grandes quantidades de venenos, agrotóxicos e, com isso, destróem tudo,água e todos os recursos naturais a sua volta. “A agricultura campesina é a única que pode salvar o planeta porque é ela que protege a biodiversidade, que protege a pachamama”, disse João Pedro.
Dentro da sua lógica expancionista, o capitalismo olhou para os indígenas, afrodescendentes e comunidades tradicionais, como parcelas atrasadas. E com isso, as investidas dele sobre os territórios desses povos tem aumentado muito. Isso causa expulsão e prejudica, ainda, o modo de vida tradicional dessas comunidades. No Brasil há cidades onde se tem grande produção de soja, em que triplicou o número de abortos por causa da água da chuva que as mulheres beberam, e que já vinha com agrotóxico.
“Temos agora que fazer luta de classes para disputar um modelo de produção agrícola. É impossível conviver o modelo capitalista de agronegócio com o modelo campesino, enquanto modelo de produção. Temos também que disputar territórios, para transformar grandes regiões em territórios camponeses”, enfatizou Stedile. Usando uma premissa de José Martí, um grande revolucionário cubano, de que “só o conhecimento liberta verdadeiramente as pessoas”, João Pedro concluiu sua exposição dizendo, “temos que tomar a educação como uma bandeira dos campesinos, para que o conhecimento seja patrimônio de todos que vivem no meio rural. Só é possível manter a juventude no campo, se desenvolvermos formas de emprego de que goste a juventude, aplicando, com isso, seu conhecimento e aprendizado”.
Equipe de Comunicação CLOC
Articulação latinoamericana frente aos grandes projetos
“Vamos construindo uma articulação continental que junte as forças frente aos inimigos comuns”, com essa ideia João Pedro Stedile, membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, iniciou sua fala que consistia em fazer um panorama da atual situação agrária na América Latina e do avanço do capital sobre essas terras.
Segundo João Pedro, em cada local o capital se comporta de forma distinta, porque o projeto do capital se constrói sobre bases naturais que se diferem de região para região, de país para país. Mas ele tem um plano geral de exploração e acumulação do lucros e riquezas, que permeia todo esse projeto. Um primeiro ponto a se destacar é que a maioria de nossos movimentos e a tradição que temos, é de que estes se formaram em um momento em que o capital industrial dominava. “Da década de 90 para cá, o capitalismo industrial está ingressando em uma nova etapa. Agora ele já não é dominado pelas fábricas, mas por um capitalismo financeiro, que é controlado pelos bancos e que também está articulado com os grandes grupos econômicos e comerciais. Temos percebido mudanças na forma que o capital chega ao campo. Não é mais o capital industrial que quer vender insumos ao produtor. Há um movimento mais amplo, que levou a tendências gerais que estão ocorrendo em todo o mundo, como a compra de ações de empresas que se transformaram em grandes conglomerados”, frisou João Pedro.
Com a derrota dos países socilaistas e com a economia capitalista fragilizada, organismos internacionais se transformaram em instrumentos de liberação de entrada de capital transnacional em nossos países latinoamericanos, de forma que o capital possa controlar nossas agriculturas, como no caso do FMI e do Banco Mundial. No Brasil, o setor capitalista gera, por ano, cerca 130 bilhões, mas consegue dos bancos perto de 100 bilhões. Ou seja, para gerar essa cifra ele necessita de um investimento quase similar. Segundo João Pedro, foi parte da estratégia dos governos neoliberais, também destruir as articulações e políticas públicas de produção do campo. Agora com governos progressistas no continente, se está tentando derrubar isso, e recompor políticas estatais de proteção aos camponeses.
Em 2008 se instalou uma crise do capital. Era um momento, depois de um período histórico de refluxo dos movimentos sociais latinoamericanos, de retomar e alavancar as lutas no continente. Entretanto, segundo Stedile, na América Latina somente os povos bolivianos estão em ascenso, lutando por políticas públicas nas ruas, junto à população. Em nenhum outro país se viu ou se vê isso. “O que passou em nosso continente é que as contradições do sistema acabaram fortalecendo a ocupação do capital sobre nossa produção agrícola. Em nosso continente tivemos um processo crescente de desnacionalização do nosso campo. Com isso, o capital se apropriou de terras, água, sementes, hidrelétricas, mineradoras, entre outras. Nossas economias não sofreram com a crise, claro, porque o capital correu para cá, para o continente latinoamericano e, com isso, a economia cresceu, mas foi um crescimento para os capitalistas”, destacou João Pedro.
A crise da reserva de petróleo chegou ao ponto de que as empresas petrolíferas e automobilísticas começaram a investir no chamado biocombustível, a quem a Via Campesina chama de agrocombustível, por considerar que essa produção não significa, de nenhuma forma, vida. No Brasil, em três anos, as empreas transnacionais desnacionalizaram 30% de toda a produção de cana de açúcar. A Cargill hoje, no Brasil, industrializa 12 milhões de toneladas de cana por ano. É mais do que toda a produção canavieira dos países do Caribe juntos. E essa é, segundo Stedile, uma proposta para todos os países.
Esses grandes capitais fazem, também, especulações nas bolsas de valores. Com isso, os produtos agrícolas padronizáveis, as chamadas commodities, vendem nas bolsas de mercadoria os alimentos primários produzidos no mundo. As grandes empresas, para proteger seu capital finaceiro, transformam esse dinheiro em títulos mercantis. Toda a safra de milho, trigo e soja, por exemplo, já está vendida até 2015.
Capitalismo e Estado
Como resultado da crise, o capitalismo, que até então não se importava com o Estado, pois considerva que o mercado controlava e resolvia tudo, passa a perceber que a saída que tinham para seus problemas era o próprio estado, pois ele é uma máquina de impostos. Os capitalistas agora, portanto, revalorizaram o estado. Por isso, voltaram a disputar os governos com os movimentos sociais e as alianças de esquerda. Isso fica claro nas tentativas de derrubar os governos progressistas no continente, como o de Rafael Correa, Evo Morales, Lula e outros, pois querem disputar dinheiro dentro do Estado.
Hoje, segundo Stedile, temos uma situação muito grave, pois mudou a classe dominante no campo e o principal controle das produções agrícolas no mundo, agora, está nas mãos das empresas trasnacionais e dos bancos, que estão atrelados a eles. Trinta empresas controlam toda a produção agrícola do mundo, quando não controlam fisicamente, controlam os preços. “O fundamental para eles é controlar os preços, é assim o mercado, inclusive nos países que antes eram exportadores de determinado produto. Tudo se está privatizando. No Brasil, a Nestlé tem uma ‘taxa de ganância’ maior vendendo água do que vendendo leite. Isso também está levando a uma padronização dos alimentos, e isso é um risco para a humanidade. Querem que todos os povos comam a mesma comida. Uma comida que não é saudável e que tem aumentado os casos de doenças e cancês no mundo, principalmente por causa dos agrotóxicos”, destacou Stedile.
O agronegocio veio com o monocultivo, para aumentar suas taxas de ganância. Necessitam, com isso, de máquinas agrícolas e não de mão de obra humana. Outra ponto a se destacar é que precisam sempre de grandes quantidades de venenos, agrotóxicos e, com isso, destróem tudo,água e todos os recursos naturais a sua volta. “A agricultura campesina é a única que pode salvar o planeta porque é ela que protege a biodiversidade, que protege a pachamama”, disse João Pedro.
Dentro da sua lógica expancionista, o capitalismo olhou para os indígenas, afrodescendentes e comunidades tradicionais, como parcelas atrasadas. E com isso, as investidas dele sobre os territórios desses povos tem aumentado muito. Isso causa expulsão e prejudica, ainda, o modo de vida tradicional dessas comunidades. No Brasil há cidades onde se tem grande produção de soja, em que triplicou o número de abortos por causa da água da chuva que as mulheres beberam, e que já vinha com agrotóxico.
“Temos agora que fazer luta de classes para disputar um modelo de produção agrícola. É impossível conviver o modelo capitalista de agronegócio com o modelo campesino, enquanto modelo de produção. Temos também que disputar territórios, para transformar grandes regiões em territórios camponeses”, enfatizou Stedile. Usando uma premissa de José Martí, um grande revolucionário cubano, de que “só o conhecimento liberta verdadeiramente as pessoas”, João Pedro concluiu sua exposição dizendo, “temos que tomar a educação como uma bandeira dos campesinos, para que o conhecimento seja patrimônio de todos que vivem no meio rural. Só é possível manter a juventude no campo, se desenvolvermos formas de emprego de que goste a juventude, aplicando, com isso, seu conhecimento e aprendizado”.
Equipe de Comunicação CLOC
A mídia comercial em guerra
Por Leonardo Boff*
Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
Esta história de vida, me avaliza para fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.
Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.
Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.
Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.
Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.
Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.
O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.
Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.
O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.
O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.
Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.
*Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.
Fonte: Agência Carta Maior.
Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.
Esta história de vida, me avaliza para fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.
Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discussão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.
Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.
Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.
Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.
Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascendente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.
Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.
O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.
Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.
O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.
O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.
Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.
*Teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.
Fonte: Agência Carta Maior.
Os desafios das juventudes na construção do projeto popular
O mais viável é nos referirmos à unidade do diverso da juventude, ou seja, juventudes em movimento
Roberta Traspadini
O retrato da juventude brasileira evidencia além dos projetos de classe, as intenções manifestas por cada corrente tanto na concepção, quanto no que fazer apresentado a este grupo social pertencente à classe trabalhadora.
Façamos um breve exercício de entender a situação concreta deste grupo na educação, para depois, imersos nos principais elementos reflexivos, pensarmos o inédito viável deste grupo.
1.Os dados sobre juventude e educação brasileira
Segundo o documento de IPEA de 2008, Juventude e Políticas Sociais no Brasil, a população de 15 a 29 anos corresponde a 27,4% da população total. Existem 51 milhões de brasileiras(os) nesta faixa etária.
Com relação à educação tanto em termos de acesso quanto de permanência, os dados são alarmantes para se pensar o futuro da Nação.
34% da população dos 15 aos 17 anos ainda não concluíram o ensino fundamental; apenas 12,7% dos jovens de 18 a 24 anos têm acesso ao curso superior.
Além disto, 83% dos jovens de 25 a 29 anos e 66% de 15 a 17 anos deixaram de estudar. O número de idas e vindas aos bancos escolares também chamam a atenção: os que pararam somente 1 vez representam 61,6%; 2 vezes 20,1% e 3vezes ou mais 16,7%.
Quase 70% destes jovens pensam ser possível retornar à escola, assim que as condições objetivas de sobrevivência o permitir.
Outro foco importante sobre a diversidade da juventude se refere à situação do jovem do campo e da cidade.
Enquanto nas cidades vivem 84,9% dos 51 milhões de jovens do País, no campo residem 15,1%.
Para o campo se amplia a precarização das condições de vida e os elementos como acesso, permanência e pertença jogam outros olhares sobre o debate do ser e sentir-se jovem.
A questão agrária, a posse da terra, o crédito, a agricultura familiar, o campesinato como classe e o uso da tecnologia subordinada à concepção de terra e de humano, são alguns dos temas a serem debatidos por estes jovens no seu contexto de vida específico.
O nível de escolaridade do jovem do campo é 50% inferior ao da cidade e o grau de analfabetismo chega a 9% nesta população.
2.O debate teórico sobre o tema
Em uma perspectiva crítica, falar em juventude é retomar ao menos 4 aspectos centrais que se entrelaçam.
1.A juventude como protagonista da formação de consciência. Se por um lado, são fundados valores, memórias, representações a partir do ora vivido, por outro lado, são abertas perspectivas sobre como ler o que se vive, para além do que até então se tem.
2.A juventude como historicidade. Está referido ao movimento ininterrupto de refazer-se a partir daquilo com que se encontra e para além. A historicidade demarca o terreno da ação dos sujeitos a partir da correlação de forças manifesta no cotidiano. Vai além, quando o permite superar o vivido rumo a outro processo de vida a ser encarnado por ela.
3.A juventude como ser social. Aqui o centro é a disputa na produção de símbolos, códigos, imagens, de uma juventude que é formada ou para reproduzir o que já está posto na engrenagem instituída pelo modo de dominação real, ou para, questionando-o, permitir verificar o que pode ser feito para superar dito modelo.
Este conceito põe em evidêcia o individualismo apregoado como única forma possível de produção de vida, na concorrência, frente as possibilidades de relações para além do processo mercantil.
4.A juventude como consciência sobre o sentido do trabalho. Neste tema, a juventude vive outras dimensões da tensão. Ou é tomada como uma mercadoria cujo preço é estipulado por quem paga, a partir da precarização intensiva de uma formação técnica para o trabalho subutilizado. Ou é tida como possibilidade de recomposição do sentido de trabalho a partir da realização e pertença do mesmo ao grupo ao qual pertence: os trabalhadores.
3.A relação entre os dados e a teoria
Com base nos dados e nos temas centrais da discussão sobre juventude podemos ver como esta categoria é complexa, heterogênea e diversificada, fazendo uma alusão à construção de Antunes sobre o sentido do trabalho.
Complexa pela relação direta entre educação e trabalho que vai promovendo a divisão social e internacional e alocando os jovens a partir do melhor uso pelo capital do saber acumulado e apreendido deste grupo.
Jovens com carteira de trabalho e sem carteira de trabalho; jovens no trabalho informal legítimo e legal; jovens no trabalho informal ilegítimo e ilegal, entre outros.
Heterogênea pela forma e o conteúdo do ser jovem a partir do recorte étnico-racial, de gênero, de regiões e de nacionalidades.
Diversificada pela explícita diferença na concepção de cultura, do sentido do trabalho, do aspecto ético-moral e da religião. Diferenças que demarcam contextualizações distintas sobre o mesmo tema dentro deste grupo.
4.A juventude e o inédito viável
O mais viável é nos referirmos à unidade do diverso da juventude, ou seja, juventudes em movimento. O inédito neste viável é a intenção de vinculá-las na disputa pelo poder a partir da construção do sentido protagonista a ser dado a este grupo dentro de um projeto popular.
As diferenças cedem espaço à diversidade em unidade e as experiências conformam um quadro comum neste mosaico de cores, flores, pedras, territórios específicos dentro de m modelo de desenvolvimento geral.
O popular vira palco da territorialidade do poder, cujo protagonismo compartilhado vai, pouco a pouco, superando as classificações e criando um novo arranjo de sociedade em cujo poder popular dê unidade ao diverso, harmonize as particularidades no todo do projeto de classe, efetive a inclusão real deste grupo na tomada de decisão rumo à implementação da sociedade que se quer.
Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES.
Roberta Traspadini
O retrato da juventude brasileira evidencia além dos projetos de classe, as intenções manifestas por cada corrente tanto na concepção, quanto no que fazer apresentado a este grupo social pertencente à classe trabalhadora.
Façamos um breve exercício de entender a situação concreta deste grupo na educação, para depois, imersos nos principais elementos reflexivos, pensarmos o inédito viável deste grupo.
1.Os dados sobre juventude e educação brasileira
Segundo o documento de IPEA de 2008, Juventude e Políticas Sociais no Brasil, a população de 15 a 29 anos corresponde a 27,4% da população total. Existem 51 milhões de brasileiras(os) nesta faixa etária.
Com relação à educação tanto em termos de acesso quanto de permanência, os dados são alarmantes para se pensar o futuro da Nação.
34% da população dos 15 aos 17 anos ainda não concluíram o ensino fundamental; apenas 12,7% dos jovens de 18 a 24 anos têm acesso ao curso superior.
Além disto, 83% dos jovens de 25 a 29 anos e 66% de 15 a 17 anos deixaram de estudar. O número de idas e vindas aos bancos escolares também chamam a atenção: os que pararam somente 1 vez representam 61,6%; 2 vezes 20,1% e 3vezes ou mais 16,7%.
Quase 70% destes jovens pensam ser possível retornar à escola, assim que as condições objetivas de sobrevivência o permitir.
Outro foco importante sobre a diversidade da juventude se refere à situação do jovem do campo e da cidade.
Enquanto nas cidades vivem 84,9% dos 51 milhões de jovens do País, no campo residem 15,1%.
Para o campo se amplia a precarização das condições de vida e os elementos como acesso, permanência e pertença jogam outros olhares sobre o debate do ser e sentir-se jovem.
A questão agrária, a posse da terra, o crédito, a agricultura familiar, o campesinato como classe e o uso da tecnologia subordinada à concepção de terra e de humano, são alguns dos temas a serem debatidos por estes jovens no seu contexto de vida específico.
O nível de escolaridade do jovem do campo é 50% inferior ao da cidade e o grau de analfabetismo chega a 9% nesta população.
2.O debate teórico sobre o tema
Em uma perspectiva crítica, falar em juventude é retomar ao menos 4 aspectos centrais que se entrelaçam.
1.A juventude como protagonista da formação de consciência. Se por um lado, são fundados valores, memórias, representações a partir do ora vivido, por outro lado, são abertas perspectivas sobre como ler o que se vive, para além do que até então se tem.
2.A juventude como historicidade. Está referido ao movimento ininterrupto de refazer-se a partir daquilo com que se encontra e para além. A historicidade demarca o terreno da ação dos sujeitos a partir da correlação de forças manifesta no cotidiano. Vai além, quando o permite superar o vivido rumo a outro processo de vida a ser encarnado por ela.
3.A juventude como ser social. Aqui o centro é a disputa na produção de símbolos, códigos, imagens, de uma juventude que é formada ou para reproduzir o que já está posto na engrenagem instituída pelo modo de dominação real, ou para, questionando-o, permitir verificar o que pode ser feito para superar dito modelo.
Este conceito põe em evidêcia o individualismo apregoado como única forma possível de produção de vida, na concorrência, frente as possibilidades de relações para além do processo mercantil.
4.A juventude como consciência sobre o sentido do trabalho. Neste tema, a juventude vive outras dimensões da tensão. Ou é tomada como uma mercadoria cujo preço é estipulado por quem paga, a partir da precarização intensiva de uma formação técnica para o trabalho subutilizado. Ou é tida como possibilidade de recomposição do sentido de trabalho a partir da realização e pertença do mesmo ao grupo ao qual pertence: os trabalhadores.
3.A relação entre os dados e a teoria
Com base nos dados e nos temas centrais da discussão sobre juventude podemos ver como esta categoria é complexa, heterogênea e diversificada, fazendo uma alusão à construção de Antunes sobre o sentido do trabalho.
Complexa pela relação direta entre educação e trabalho que vai promovendo a divisão social e internacional e alocando os jovens a partir do melhor uso pelo capital do saber acumulado e apreendido deste grupo.
Jovens com carteira de trabalho e sem carteira de trabalho; jovens no trabalho informal legítimo e legal; jovens no trabalho informal ilegítimo e ilegal, entre outros.
Heterogênea pela forma e o conteúdo do ser jovem a partir do recorte étnico-racial, de gênero, de regiões e de nacionalidades.
Diversificada pela explícita diferença na concepção de cultura, do sentido do trabalho, do aspecto ético-moral e da religião. Diferenças que demarcam contextualizações distintas sobre o mesmo tema dentro deste grupo.
4.A juventude e o inédito viável
O mais viável é nos referirmos à unidade do diverso da juventude, ou seja, juventudes em movimento. O inédito neste viável é a intenção de vinculá-las na disputa pelo poder a partir da construção do sentido protagonista a ser dado a este grupo dentro de um projeto popular.
As diferenças cedem espaço à diversidade em unidade e as experiências conformam um quadro comum neste mosaico de cores, flores, pedras, territórios específicos dentro de m modelo de desenvolvimento geral.
O popular vira palco da territorialidade do poder, cujo protagonismo compartilhado vai, pouco a pouco, superando as classificações e criando um novo arranjo de sociedade em cujo poder popular dê unidade ao diverso, harmonize as particularidades no todo do projeto de classe, efetive a inclusão real deste grupo na tomada de decisão rumo à implementação da sociedade que se quer.
Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES.
A alimentação dos brasileiros está cada vez mais envenenada
O brasileiro ingeriu, em média, 3,7 quilos de agrotóxicos em 2009. Trata-se de uma massa de cerca de 713 milhões de toneladas de produtos comercializadas no país por cerca de seis corporações transnacionais. Estas empresas controlam toda a cadeia produtiva, da semente ao agroquímico ligado a ela. Uma condição que pressiona o agricultor familiar, refém da compra do “pacote tecnológico” gerador da dependência na produção. O capital dessas companhias do ramo é maior que o produto interno bruto da maioria dos países da Organização das Nações Unidas. Só no Brasil lucraram 6,8 bilhões de dólares em 2009.
A reportagem é de Pedro Carrano e publicada pelo Brasil de Fato, 29-07-2010.
Para tanto, o país ergueu a taça de campeão mundial em uso de agrotóxicos e bateu outro recorde: duplicou o consumo em relação a 2008. Relatórios recentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que vem sendo criticado pelo lobby do agronegócio, apontam que 15% dos alimentos pesquisados pelo órgão apresentaram taxa de resíduos de veneno em um nível prejudicial à saúde. Cana-de-açúcar, soja, arroz, milho, tabaco, tomate, batata, hortaliças são produtos do dia-a-dia que passaram a ter alto índice de toxidade.
Agroquímico, semente, terra e mercado fazem parte da mesma cadeia produtiva sob controle dos monopólios. Larissa Parker, advogada da Terra de Direitos, aponta uma relação direta entre a concentração do mercado de sementes e de agrotóxicos. A transnacional Monsanto controla de 85 a 87% do mercado de sementes. No caso do transgênico Milho BT (da empresa estadunidense), de acordo com a advogada, o próprio cereal é desenvolvido com uma toxina contra determinado tipo de praga. Ainda assim, agricultores no Rio Grande do Sul precisaram realizar mais de duas aplicações de agrotóxicos na lavoura. Os insetos mostraram-se resistentes à substância tóxica. Na Argentina, as corporações cobram patentes apenas dos agrotóxicos e não das sementes, já que o seu uso está atrelado a elas.
Apesar de surgir como a “salvação da lavoura”, prometendo aumento de produtividade, a introdução do químico ligado à semente transgênica incentivou o aumento do uso de tóxicos. O cultivo da soja teve uma variação negativa em sua área plantada (- 2,55%) e, contraditoriamente, uma variação positiva de 31,27% no consumo de agrotóxicos, entre os anos de 2004 a 2008, como explicam os professores Fernando Ferreira Carneiro e Vicente Soares e Almeida, do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB).
Além disso, produtos que foram barrados no exterior são usados em diferentes cultivos brasileiros. Entre dezenas de substâncias perigosas, o endosulfan, por exemplo, é um inseticida cancerígeno, proibido há 20 anos na União Europeia, Índia, Burkina Faso, Cabo Verde, Nigéria, Senegal e Paraguai. Mas não é proibido no Brasil, onde é muito usado na soja e no milho.
Outro exemplo de um cenário absurdo: grandes produtores de cítricos não têm usado determinada substância tóxica, não por consciência ecológica, mas porque países importadores não a aceitam. De acordo com informações da página da Anvisa “todos os citricultores que exportam suco de laranja já não utilizam mais a cihexatina, pois nenhum país importador, como Canadá, Estados Unidos, Japão e União Européia, aceita resíduos dessa substância nos alimentos”.
Cultura internalizada
O Censo Agropecuário de 2006, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informou que 56% das propriedades brasileiras usam venenos sem assistência técnica. De acordo com a mesma pesquisa, práticas alternativas, como controle biológico, queima de resíduos agrícolas e de restos de cultura, que poderiam gerar redução no uso de agrotóxicos, também são pouco utilizadas.
Adriano Resemberg, engenheiro agrônomo do departamento de fiscalização da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab), analisa a questão dos agrotóxicos a partir dos seguintes eixos: o primeiro é que o uso dos agrotóxicos produz um impacto e uma alteração do bioma local. O outro é que a prática do uso de venenos é desnecessária, mas acaba sendo apontada como a única saída para o produtor. E vira uma cultura. “Muitas boas práticas agrícolas, como o manejo do solo, têm sido deixadas de lado.
O uso do agrotóxico é mais fácil, diante da falta de uma saída do serviço de assistência técnica pública do Estado. O que vemos são profissionais levando pacotes [tecnológicos] e não soluções, um modelo que leva o agricultor a usar o agrotóxico e não questionar muito isso. Usar um inimigo natural não significa menos tecnologia, ao contrário”, analisa.
A reportagem é de Pedro Carrano e publicada pelo Brasil de Fato, 29-07-2010.
Para tanto, o país ergueu a taça de campeão mundial em uso de agrotóxicos e bateu outro recorde: duplicou o consumo em relação a 2008. Relatórios recentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que vem sendo criticado pelo lobby do agronegócio, apontam que 15% dos alimentos pesquisados pelo órgão apresentaram taxa de resíduos de veneno em um nível prejudicial à saúde. Cana-de-açúcar, soja, arroz, milho, tabaco, tomate, batata, hortaliças são produtos do dia-a-dia que passaram a ter alto índice de toxidade.
Agroquímico, semente, terra e mercado fazem parte da mesma cadeia produtiva sob controle dos monopólios. Larissa Parker, advogada da Terra de Direitos, aponta uma relação direta entre a concentração do mercado de sementes e de agrotóxicos. A transnacional Monsanto controla de 85 a 87% do mercado de sementes. No caso do transgênico Milho BT (da empresa estadunidense), de acordo com a advogada, o próprio cereal é desenvolvido com uma toxina contra determinado tipo de praga. Ainda assim, agricultores no Rio Grande do Sul precisaram realizar mais de duas aplicações de agrotóxicos na lavoura. Os insetos mostraram-se resistentes à substância tóxica. Na Argentina, as corporações cobram patentes apenas dos agrotóxicos e não das sementes, já que o seu uso está atrelado a elas.
Apesar de surgir como a “salvação da lavoura”, prometendo aumento de produtividade, a introdução do químico ligado à semente transgênica incentivou o aumento do uso de tóxicos. O cultivo da soja teve uma variação negativa em sua área plantada (- 2,55%) e, contraditoriamente, uma variação positiva de 31,27% no consumo de agrotóxicos, entre os anos de 2004 a 2008, como explicam os professores Fernando Ferreira Carneiro e Vicente Soares e Almeida, do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB).
Além disso, produtos que foram barrados no exterior são usados em diferentes cultivos brasileiros. Entre dezenas de substâncias perigosas, o endosulfan, por exemplo, é um inseticida cancerígeno, proibido há 20 anos na União Europeia, Índia, Burkina Faso, Cabo Verde, Nigéria, Senegal e Paraguai. Mas não é proibido no Brasil, onde é muito usado na soja e no milho.
Outro exemplo de um cenário absurdo: grandes produtores de cítricos não têm usado determinada substância tóxica, não por consciência ecológica, mas porque países importadores não a aceitam. De acordo com informações da página da Anvisa “todos os citricultores que exportam suco de laranja já não utilizam mais a cihexatina, pois nenhum país importador, como Canadá, Estados Unidos, Japão e União Européia, aceita resíduos dessa substância nos alimentos”.
Cultura internalizada
O Censo Agropecuário de 2006, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informou que 56% das propriedades brasileiras usam venenos sem assistência técnica. De acordo com a mesma pesquisa, práticas alternativas, como controle biológico, queima de resíduos agrícolas e de restos de cultura, que poderiam gerar redução no uso de agrotóxicos, também são pouco utilizadas.
Adriano Resemberg, engenheiro agrônomo do departamento de fiscalização da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab), analisa a questão dos agrotóxicos a partir dos seguintes eixos: o primeiro é que o uso dos agrotóxicos produz um impacto e uma alteração do bioma local. O outro é que a prática do uso de venenos é desnecessária, mas acaba sendo apontada como a única saída para o produtor. E vira uma cultura. “Muitas boas práticas agrícolas, como o manejo do solo, têm sido deixadas de lado.
O uso do agrotóxico é mais fácil, diante da falta de uma saída do serviço de assistência técnica pública do Estado. O que vemos são profissionais levando pacotes [tecnológicos] e não soluções, um modelo que leva o agricultor a usar o agrotóxico e não questionar muito isso. Usar um inimigo natural não significa menos tecnologia, ao contrário”, analisa.
Mais de meio milhão de brasileiros e brasileiras dizem SIM ao limite da propriedade de terra
O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo entrega hoje à sociedade brasileira o resultado do Plebiscito Popular sobre o Limite da Propriedade, realizado de 1º a 12 de setembro de 2010.
Participaram deste plebiscito 519.623 pessoas, em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. Só não participaram do mesmo, Santa Catarina, Amapá e Acre que optaram por fazer o abaixo-assinado, somente. Eram admitidas à votação pessoas acima de 16 anos, portanto em condições de votar.
Duas foram as perguntas formuladas às quais se devia responder sim ou não.
A primeira: Você concorda que as grandes propriedades de terra no Brasil, devem ter um limite máximo de tamanho?
A segunda: Você concorda que o limite das grandes propriedades de terra no Brasil possibilita aumentar a produção de alimentos saudáveis e melhorar as condições de vida no campo e na cidade?
95,52% responderam afirmativamente à primeira pergunta, 3,52, negativamente, 0,63% foram votos em branco e 0,34%, votos nulos.
Em relação à segunda pergunta os que responderam sim foram 94,39%, 4,27% responderam não, 0,89 % foram votos em branco e 0,45%, votos nulos.
Considerando as dificuldades enfrentadas tanto na produção, quanto na distribuição de um mínimo de material, pela falta de recursos e de pessoal disponível; considerando que o Fórum e outras entidades envolvidas não tiveram acesso a qualquer veículo de comunicação de massas; considerando o momento, quando as atenções estão voltadas e os militantes envolvidos nas campanhas eleitorais, pode-se saudar o resultado como muito positivo.
Mais de meio milhão de pessoas se posicionou afirmativamente em relação à necessidade e à conveniência de se colocar um limite à propriedade da terra. Este é um indicador expressivo de que a sociedade brasileira vê a proposta como adequada. É uma amostragem do que pensa boa parcela do povo brasileiro. As pesquisas de opinião ouvem duas ou três mil pessoas e seus dados são apresentados como a expressão da vontade da sociedade!
Mas o que se pode ressaltar como o mais positivo, e que os números não expressam, é todo o trabalho de conscientização que se realizou em torno do plebiscito. Foi desenvolvida uma pedagogia que incluiu reflexão, debates, organização de comitês, divulgação e outros instrumentos sobre um tema considerado tabu, como é o da propriedade privada.
Em quase todos os estados foram realizados debates em universidades, escolas, igrejas e outros espaços em que se pôde colocar a realidade agrária em toda sua crueza. Para muitos, cujo contato com o campo é praticamente nulo, estes debates abriram um horizonte novo no conhecimento da realidade brasileira. Também se pode saudar como fruto precioso deste processo, os inúmeros trabalhos e textos produzidos pela academia sobre o arcabouço jurídico que se formou em torno à propriedade da terra e sobre aspectos históricos, sociológicos e geográficos da concentração fundiária no Brasil. Não fosse a proposta do plebiscito esta reflexão não teria vindo à tona com a força com que veio.
Este ensaio está também a indicar que um Plebiscito Oficial deveria ser proposto para que todos os cidadãos e cidadãs pudessem se manifestar diante de um tema de tamanha importância para o resgate da cidadania de milhões de brasileiros e brasileiras que lutam, muitas vezes sem sucesso, buscando um pedaço de chão onde viver e de onde retirar o sustento. O Fórum vai continuar firme na luta para que seja colocado um limite à propriedade da terra.
A população brasileira também foi convidada a participar de um abaixo-assinado que continua circulando em todo país até o final deste ano. O objetivo desta coleta de assinaturas é entrar com um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso Nacional para que seja inserido um novo inciso no artigo 186 da Constituição Federal que se refere ao cumprimento da função social da propriedade rural.
Já o plebiscito popular, além de consultar a população sobre a necessidade de se estabelecer um limite máximo à propriedade da terra, teve a tarefa de ser, fundamentalmente, um importante processo pedagógico de formação e conscientização do povo brasileiro sobre a realidade agrária do nosso país e de debater sobre qual projeto defendemos para o povo brasileiro. Além disso, o Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade de Terra veio como um instrumento para pautar a sociedade brasileira sobre a importância e a urgência de se realizar uma Reforma Agrária justa em nosso país.
A proposta da Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade de Terra visa pressionar o Congresso Nacional para que seja incluído na Constituição Federal um novo inciso que limite o tamanho da terra em até 35 módulos fiscais - medida sugerida pela campanha do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA).
Além das 54 entidades que compõem o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, também promovem o Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da Terra, a Assembléia Popular (AP) e o Grito dos Excluídos. O ato ainda conta com o apoio oficial das Pastorais Sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic).
Fonte: Assessoria de Comunicação - Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo
Participaram deste plebiscito 519.623 pessoas, em 23 estados brasileiros e no Distrito Federal. Só não participaram do mesmo, Santa Catarina, Amapá e Acre que optaram por fazer o abaixo-assinado, somente. Eram admitidas à votação pessoas acima de 16 anos, portanto em condições de votar.
Duas foram as perguntas formuladas às quais se devia responder sim ou não.
A primeira: Você concorda que as grandes propriedades de terra no Brasil, devem ter um limite máximo de tamanho?
A segunda: Você concorda que o limite das grandes propriedades de terra no Brasil possibilita aumentar a produção de alimentos saudáveis e melhorar as condições de vida no campo e na cidade?
95,52% responderam afirmativamente à primeira pergunta, 3,52, negativamente, 0,63% foram votos em branco e 0,34%, votos nulos.
Em relação à segunda pergunta os que responderam sim foram 94,39%, 4,27% responderam não, 0,89 % foram votos em branco e 0,45%, votos nulos.
Considerando as dificuldades enfrentadas tanto na produção, quanto na distribuição de um mínimo de material, pela falta de recursos e de pessoal disponível; considerando que o Fórum e outras entidades envolvidas não tiveram acesso a qualquer veículo de comunicação de massas; considerando o momento, quando as atenções estão voltadas e os militantes envolvidos nas campanhas eleitorais, pode-se saudar o resultado como muito positivo.
Mais de meio milhão de pessoas se posicionou afirmativamente em relação à necessidade e à conveniência de se colocar um limite à propriedade da terra. Este é um indicador expressivo de que a sociedade brasileira vê a proposta como adequada. É uma amostragem do que pensa boa parcela do povo brasileiro. As pesquisas de opinião ouvem duas ou três mil pessoas e seus dados são apresentados como a expressão da vontade da sociedade!
Mas o que se pode ressaltar como o mais positivo, e que os números não expressam, é todo o trabalho de conscientização que se realizou em torno do plebiscito. Foi desenvolvida uma pedagogia que incluiu reflexão, debates, organização de comitês, divulgação e outros instrumentos sobre um tema considerado tabu, como é o da propriedade privada.
Em quase todos os estados foram realizados debates em universidades, escolas, igrejas e outros espaços em que se pôde colocar a realidade agrária em toda sua crueza. Para muitos, cujo contato com o campo é praticamente nulo, estes debates abriram um horizonte novo no conhecimento da realidade brasileira. Também se pode saudar como fruto precioso deste processo, os inúmeros trabalhos e textos produzidos pela academia sobre o arcabouço jurídico que se formou em torno à propriedade da terra e sobre aspectos históricos, sociológicos e geográficos da concentração fundiária no Brasil. Não fosse a proposta do plebiscito esta reflexão não teria vindo à tona com a força com que veio.
Este ensaio está também a indicar que um Plebiscito Oficial deveria ser proposto para que todos os cidadãos e cidadãs pudessem se manifestar diante de um tema de tamanha importância para o resgate da cidadania de milhões de brasileiros e brasileiras que lutam, muitas vezes sem sucesso, buscando um pedaço de chão onde viver e de onde retirar o sustento. O Fórum vai continuar firme na luta para que seja colocado um limite à propriedade da terra.
A população brasileira também foi convidada a participar de um abaixo-assinado que continua circulando em todo país até o final deste ano. O objetivo desta coleta de assinaturas é entrar com um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso Nacional para que seja inserido um novo inciso no artigo 186 da Constituição Federal que se refere ao cumprimento da função social da propriedade rural.
Já o plebiscito popular, além de consultar a população sobre a necessidade de se estabelecer um limite máximo à propriedade da terra, teve a tarefa de ser, fundamentalmente, um importante processo pedagógico de formação e conscientização do povo brasileiro sobre a realidade agrária do nosso país e de debater sobre qual projeto defendemos para o povo brasileiro. Além disso, o Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade de Terra veio como um instrumento para pautar a sociedade brasileira sobre a importância e a urgência de se realizar uma Reforma Agrária justa em nosso país.
A proposta da Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade de Terra visa pressionar o Congresso Nacional para que seja incluído na Constituição Federal um novo inciso que limite o tamanho da terra em até 35 módulos fiscais - medida sugerida pela campanha do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA).
Além das 54 entidades que compõem o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, também promovem o Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da Terra, a Assembléia Popular (AP) e o Grito dos Excluídos. O ato ainda conta com o apoio oficial das Pastorais Sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic).
Fonte: Assessoria de Comunicação - Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo
MANIFESTO DOS Movimentos Sociais -ao Povo Brasileiro Sobre as Eleições 2010-
No início do processo eleitoral deste ano, os Movimentos Sociais e a Via Campesina Brasileira tomaram a decisão política de empenhar esforços para eleger o maior número possível de parlamentares e governadores, identificados com as bandeiras populares da classe trabalhadora, com o aprofundamento da democracia e soberania brasileira e com políticas que combatam a concentração da propriedade e da renda em nosso país. Quanto à eleição presidencial, as organizações populares do campo que compõem a Via Campesina decidiram lutar para que não houvesse a vitória eleitoral de uma proposta neoliberal, representando pela candidatura do tucano José Serra.
Passando o primeiro turno dessa campanha eleitoral, realizado dia 3/10, queremos, com este comunicado ao Povo Brasileiro, manifestar nossa decisão política frente á eleições deste ano:
1. Sobre o primeiro turno:
a) São alvissareiras as renovações que ocorreram nas assembléias estaduais, na Câmera dos Deputados, no Senado Federal, na eleição e reeleição de governadores progressistas. Especialmente no Senado Federal, fomos vitoriosos com a eleição de companheiros e companheiras identificadas com nossas lutas e com a não eleição de senadores que se notabilizaram pela perseguição aos movimento sociais e identificados com os interesses do agro-negócio. Destacamos, como vitória, a derrota eleitoral do governo tucano de Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul, que se notabilizou, juntamente com o governo tucano de São Paulo, no controle da mídia, na criminalização dos movimentos sociais e na repressão à luta pela reforma agrária, aos movimentos de moradia e ao movimento dos professores da rede pública estadual.
b) Sobre as campanhas presidenciáis, evidenciou-se que não transcorreram debates em torno de projetos políticos e dos problemas principais que afetam a população brasileira. A campanha de Dilma Roussef buscou apenas de forma pragmática, divulgar o desenvolvimento econômico e as políticas sociais do governo Lula, apoiar-se na popularidade e nos enorme índices de aprovação do atual governo. Com essa estratégia obteve quase 47% dos votos, mas foi insuficiente para vencer no primeiro turno.
c) Quanto á candidatura de José Serra nos surpreendeu não por sua identificação com as políticas neoliberais e sim pelo baixo nível da sua campanha presidencial. Foi agressivo e perseguiu jornalistas que lhe entrevistaram, tentou interferir em julgamentos do Supremo Tribunal Federal(STF), espalhou mentiras e acusações infundadas, chegou a usar a própria esposa que percorreu as ruas de Niterói dizendo que a Dilma Roussef, “é a favor de matar as criancinhas”. Somente uma candidatura sem nenhum compromisso com a ética e com a verdade e contando com o total controle sobre a mídia pode desenvolver uma campanha de tão baixo nível. A biografia do candidato já é a maior derrotada nessas eleições.
d) Quanto a candidatura de Marina Silva, cumpriu o objetivo a que se propôs: o de provocar o segundo turno nessa campanha eleitoral. O tempo dirá se o seu êxito serviu para fortalecer a democracia ou simplesmente foi utilizado pelas forças conservadoras, retornassem ao governo do país.
e) Já as candidaturas identificadas com os partidos de esquerda, que utilizaram o espaço eleitoral para defender os interesses da classe trabalhadora, infelizmente tiveram uma votação inexpressiva.
f) O descenso social que há duas décadas temos em nosso país, fragmentação das organizações da classe trabalhadora e a fragilidade da política de comunicação com a sociedade, certamente influíram no resultado eleitoral. Cabe uma auto-crítica aos partidos políticos que se limitam apenas as campanhas eleitorais para dialogar com a sociedade, e que não fazem trabalho de base e de formação política permanente.
g) Por último, as eleições deste ano demonstraram o poder nefasto e anti-democrático da mídia. Por outro lado, potencializou uma rede de comunicadores independentes, comprometidos com a liberdade de expressão e com o direito à informação e que enfrentaram aguerridamente o monopólio dos meios de comunicação em nosso país. São avanços rumo à democratização da informação e pelo controle social sobre meios de comunicação.
2) Sobre o segundo Turno:
a) Reafirmamos nosso compromisso em defesa das bandeiras de lutas da classe trabalhadora e na construção de um país democrático, socialmente justo e soberano. Independentemente do governo eleito, seja ele qual for, iremos lutar, de forma intransigente pela expansão das liberdades e dos direitos democráticos oprimidos; mudanças nas instituições e serviços públicos, em benefício da ampla maioria da população; combate aos monopólios para o desenvolvimento com soberania e distribuição de renda; defesa das conquistas trabalhistas, a redução da jornada de trabalho, o direito de greve para os servidores públicos; a Previdência Social pública, de boa qualidade pelo fim do fator previdenciário; realização de uma reforma urbana, com moradia, saneamento básico, transporte público e segurança; construção de serviços de saúde universal e de boa qualidade; reformas na educação pública e promoção da cultura nacional-popular com caráter universal; fim do latifúndio, controle do capital estrangeiro sobre nosso, recursos naturais e a realização de uma reforma agrária anti-latifundiária; implantação de novas relações da sociedade com o meio-ambiente e efetivação uma política externa de autodeterminação, solidariedade aos povos e que priorize a integração dos povos do continente latino-americano e do Caribe.
b) Infelizmente, os avanços do governo Lula em direção á essas bandeiras democrático-populares, foram insuficientes em, que pese o acerto de sua política externa. Também nos preocupa constatar que, no arco de alianças da candidatura de Dilma Roussef, há forças políticas que se contrapõem à essas demandas sociais.
c) Porém, temos uma certeza: José Serra, por sua campanha, pelo seu governo no estado de São Paulo e pelos oito anos de governo FHC, tornou-se inimigo dessas bandeiras de lutas. Pelo caráter conservador e anti-popular dos partidos que compõem sua aliança eleitoral e por sua personalidade autoritária estamos convictos que uma possível vitória sua significará um retrocesso para os movimentos sociais e populares em nosso país, e para as conquistas democráticas em nosso continente e uma maior subordinação ao império estadunidenses. Esse retrocesso não queremos que aconteça.
3. Nossa Posição frente ao Segundo Turno:
Assim, os Movimentos Sociais e a Via Campesiana Brasileira afirmam o seu apóio e compromisso de lutar para eleger a candidata Dilma Roussef para o cargo de presidenta do Brasil. Queremos nos juntar aos movimentos sindicais, populares, estudantis e religiosos, progressistas, para promover debates com a sociedade, desmascarar a propaganda enganosa dos neoliberais e autoritários e exigir avanços na democracia e nas políticas públicas que favoreçam a população, no combate aos corruptos e corruptores e na democratização do poder em nosso pais.
Precisamos derrotar a candidatura Serra, pois ela representa as forças direitistas e fascistas do país.
Devemos seguir organizando o povo para que lute por seus direitos e mudanças sociais, mantendo sempre nossa autonomia política frente aos governos.
Conclamamos a militância de todos os movimentos sociais, os lutadores e lutadoras do povo brasileiro, para se engajarem nessa luta, que é importantíssima para a classe trabalhadora.
Vamos à Luta!!
Vamos eleger Dilma Roussef, presidenta do Brasil.
São Paulo, 6 de outubro de 2010.
Assembléia Popular- Pernambuco
Centro de Estudos Barão de Itararé- articulação de blogs e imprensa alternativa
Fórum Brasileiro de Economia Solidária
Marcha Mundial das Mulheres-MMM
Movimento dos atingidos por barragens- MAB
Movimento dos pequenos agricultores- MPA
Movimento das mulheres camponesas- MMC
REBRIP - Rede Brasileira de Integração dos Povos
Senge/PR - Sindicato dos Engenheiros do Paraná
UNEAFRO- União dos estudantes afrodescendentes
Via Campesina Brasil
Passando o primeiro turno dessa campanha eleitoral, realizado dia 3/10, queremos, com este comunicado ao Povo Brasileiro, manifestar nossa decisão política frente á eleições deste ano:
1. Sobre o primeiro turno:
a) São alvissareiras as renovações que ocorreram nas assembléias estaduais, na Câmera dos Deputados, no Senado Federal, na eleição e reeleição de governadores progressistas. Especialmente no Senado Federal, fomos vitoriosos com a eleição de companheiros e companheiras identificadas com nossas lutas e com a não eleição de senadores que se notabilizaram pela perseguição aos movimento sociais e identificados com os interesses do agro-negócio. Destacamos, como vitória, a derrota eleitoral do governo tucano de Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul, que se notabilizou, juntamente com o governo tucano de São Paulo, no controle da mídia, na criminalização dos movimentos sociais e na repressão à luta pela reforma agrária, aos movimentos de moradia e ao movimento dos professores da rede pública estadual.
b) Sobre as campanhas presidenciáis, evidenciou-se que não transcorreram debates em torno de projetos políticos e dos problemas principais que afetam a população brasileira. A campanha de Dilma Roussef buscou apenas de forma pragmática, divulgar o desenvolvimento econômico e as políticas sociais do governo Lula, apoiar-se na popularidade e nos enorme índices de aprovação do atual governo. Com essa estratégia obteve quase 47% dos votos, mas foi insuficiente para vencer no primeiro turno.
c) Quanto á candidatura de José Serra nos surpreendeu não por sua identificação com as políticas neoliberais e sim pelo baixo nível da sua campanha presidencial. Foi agressivo e perseguiu jornalistas que lhe entrevistaram, tentou interferir em julgamentos do Supremo Tribunal Federal(STF), espalhou mentiras e acusações infundadas, chegou a usar a própria esposa que percorreu as ruas de Niterói dizendo que a Dilma Roussef, “é a favor de matar as criancinhas”. Somente uma candidatura sem nenhum compromisso com a ética e com a verdade e contando com o total controle sobre a mídia pode desenvolver uma campanha de tão baixo nível. A biografia do candidato já é a maior derrotada nessas eleições.
d) Quanto a candidatura de Marina Silva, cumpriu o objetivo a que se propôs: o de provocar o segundo turno nessa campanha eleitoral. O tempo dirá se o seu êxito serviu para fortalecer a democracia ou simplesmente foi utilizado pelas forças conservadoras, retornassem ao governo do país.
e) Já as candidaturas identificadas com os partidos de esquerda, que utilizaram o espaço eleitoral para defender os interesses da classe trabalhadora, infelizmente tiveram uma votação inexpressiva.
f) O descenso social que há duas décadas temos em nosso país, fragmentação das organizações da classe trabalhadora e a fragilidade da política de comunicação com a sociedade, certamente influíram no resultado eleitoral. Cabe uma auto-crítica aos partidos políticos que se limitam apenas as campanhas eleitorais para dialogar com a sociedade, e que não fazem trabalho de base e de formação política permanente.
g) Por último, as eleições deste ano demonstraram o poder nefasto e anti-democrático da mídia. Por outro lado, potencializou uma rede de comunicadores independentes, comprometidos com a liberdade de expressão e com o direito à informação e que enfrentaram aguerridamente o monopólio dos meios de comunicação em nosso país. São avanços rumo à democratização da informação e pelo controle social sobre meios de comunicação.
2) Sobre o segundo Turno:
a) Reafirmamos nosso compromisso em defesa das bandeiras de lutas da classe trabalhadora e na construção de um país democrático, socialmente justo e soberano. Independentemente do governo eleito, seja ele qual for, iremos lutar, de forma intransigente pela expansão das liberdades e dos direitos democráticos oprimidos; mudanças nas instituições e serviços públicos, em benefício da ampla maioria da população; combate aos monopólios para o desenvolvimento com soberania e distribuição de renda; defesa das conquistas trabalhistas, a redução da jornada de trabalho, o direito de greve para os servidores públicos; a Previdência Social pública, de boa qualidade pelo fim do fator previdenciário; realização de uma reforma urbana, com moradia, saneamento básico, transporte público e segurança; construção de serviços de saúde universal e de boa qualidade; reformas na educação pública e promoção da cultura nacional-popular com caráter universal; fim do latifúndio, controle do capital estrangeiro sobre nosso, recursos naturais e a realização de uma reforma agrária anti-latifundiária; implantação de novas relações da sociedade com o meio-ambiente e efetivação uma política externa de autodeterminação, solidariedade aos povos e que priorize a integração dos povos do continente latino-americano e do Caribe.
b) Infelizmente, os avanços do governo Lula em direção á essas bandeiras democrático-populares, foram insuficientes em, que pese o acerto de sua política externa. Também nos preocupa constatar que, no arco de alianças da candidatura de Dilma Roussef, há forças políticas que se contrapõem à essas demandas sociais.
c) Porém, temos uma certeza: José Serra, por sua campanha, pelo seu governo no estado de São Paulo e pelos oito anos de governo FHC, tornou-se inimigo dessas bandeiras de lutas. Pelo caráter conservador e anti-popular dos partidos que compõem sua aliança eleitoral e por sua personalidade autoritária estamos convictos que uma possível vitória sua significará um retrocesso para os movimentos sociais e populares em nosso país, e para as conquistas democráticas em nosso continente e uma maior subordinação ao império estadunidenses. Esse retrocesso não queremos que aconteça.
3. Nossa Posição frente ao Segundo Turno:
Assim, os Movimentos Sociais e a Via Campesiana Brasileira afirmam o seu apóio e compromisso de lutar para eleger a candidata Dilma Roussef para o cargo de presidenta do Brasil. Queremos nos juntar aos movimentos sindicais, populares, estudantis e religiosos, progressistas, para promover debates com a sociedade, desmascarar a propaganda enganosa dos neoliberais e autoritários e exigir avanços na democracia e nas políticas públicas que favoreçam a população, no combate aos corruptos e corruptores e na democratização do poder em nosso pais.
Precisamos derrotar a candidatura Serra, pois ela representa as forças direitistas e fascistas do país.
Devemos seguir organizando o povo para que lute por seus direitos e mudanças sociais, mantendo sempre nossa autonomia política frente aos governos.
Conclamamos a militância de todos os movimentos sociais, os lutadores e lutadoras do povo brasileiro, para se engajarem nessa luta, que é importantíssima para a classe trabalhadora.
Vamos à Luta!!
Vamos eleger Dilma Roussef, presidenta do Brasil.
São Paulo, 6 de outubro de 2010.
Assembléia Popular- Pernambuco
Centro de Estudos Barão de Itararé- articulação de blogs e imprensa alternativa
Fórum Brasileiro de Economia Solidária
Marcha Mundial das Mulheres-MMM
Movimento dos atingidos por barragens- MAB
Movimento dos pequenos agricultores- MPA
Movimento das mulheres camponesas- MMC
REBRIP - Rede Brasileira de Integração dos Povos
Senge/PR - Sindicato dos Engenheiros do Paraná
UNEAFRO- União dos estudantes afrodescendentes
Via Campesina Brasil
Assinar:
Postagens (Atom)