Alunos da zona rural de Igaci sofrem com falta de estrutura. Veja! A escola é pequena, as carteiras estão em péssimo estado e o banheiro não tem port

Alunos da zona rural de Igaci sofrem com falta de estrutura. Veja!

A escola é pequena, as carteiras estão em péssimo estado e o banheiro não tem porta

Gazetaweb com TV Gazeta

Crianças da zona rural de Igaci lutam para estudar. Como não há espaço para todos os estudantes na escola, eles ficam em salas de aulas improvisadas. Mas o improviso é tanto que falta ventilação, os banheiros não tem a mínima estrutura e em alguns casos eles tem que dividir espaço com botijões de gás.

Ao lado de uma casa, em um pequeno salão, improvisado como sala de aula, estudam alunos do terceiro ano do ensino fundamental, a maioria é de filhos de agricultores. Eles bebem água de um filtro de barro.Outra dificuldade é enxergar o que é escrito no quadro, porque o sol reflete na lousa e atrapalha a visão.

Em outra sala de aula improvisada, além da falta de estrutura, o que chama a atenção são os botijões de gás de cozinha, que ficam em um quartinho ao lado do corredor onde ficam os estudantes, que curam o quarto ano do ensino fundamental. Os botijões pertencem à dona da casa, que cedeu a parte dos fundos do imóvel para que os alunos tivessem aulas.

As salas de aula improvisadas ficam no Povoado Dionísio, zona rural de Igaci. Elas funcionam como extensão da Escola Nossa Senhora da Saúde, que pertence à rede municipal de ensino. Na escola o estado das carteiras não é dos melhores, os banheiros ficam do lado de fora e não tem aparelho de descarga. Um deles está com a porta quebrada.

Veja o vídeo produzido pela TV gazeta

http://gazetaweb.globo.com/v2/videos/video.php?c=9743

Um bom exenplo;educadoras deram aulas em ocupação na capital alagoanae




A escola pode ser improvisada, mas o conhecimento será eter


Texto e fotos: Helciane Angélica - jornalista/CPT-AL

Educadoras: Edcleide e Lidiane

A Comissão Pastoral da Terra em parceria com os movimentos rurais (MST, MLST e MTL) realizaram de 9 a 11 de fevereiro várias atividades em Maceió para chamar a atenção da sociedade sobre a velocidade das reintegrações de posse em Alagoas e a situação de miséria que 1.283 famílias camponesas foram deixadas após os despejos.

No acampamento montado na Praça Afrânio Jorge conhecida por Praça da Faculdade no Centro da capital alagoana, estiveram presentes cerca de 2000 trabalhadores rurais, inclusive, muitas crianças oriundas de várias partes do Estado.

Mística infantil

Os pequenos brincavam bastante ou tinham que acompanhar seus pais nas mobilizações. E para deixá-los ainda mais ativos, educadoras do campo que atuam em escolas itinerantes da CPT em vários acampamentos, resolveram passar conhecimento e entreter-los ainda mais.

Em cima de um pedaço de lona uma escola foi improvisada, tinha quadro, giz, papel, lápis de cor, giz cera, jogos educativos e muita vontade de aprender. Um local ventilado e com muita sombra era escolhido, e as informações foram repassadas pelas professoras Edcleide Silva e Lidiane Cândido no horário das 9h às 12h, e das 14h às 16h30.

A maioria das crianças desenharam a realidade no campo


As atividades iniciavam logo cedo com uma oração e um cântico de aconchego. Mais de 30 crianças de quatro a 14 anos, aprenderam um pouco mais sobre ecologia, a importância da luta no campo, literatura contada, cânticos dos movimentos rurais, ainda teve arte e desenho livre. E no encerramento do dia, sempre tinha uma grande ciranda.

As educadoras também faziam perguntas sobre a ocupação e porque era importante ter a reforma agrária no Brasil, mesmo sem compreender a complexidade das ações, eles sabiam as reais necessidades de suas famílias e tinham a resposta na ponta da língua: para plantar, colher, cuidar da terra, ter animais e para sobreviver. Eram muitos os pontos de vista!

A princípio participaram crianças das áreas acompanhadas pela CPT, logo, vieram outras dos movimentos

O pequeno Eduardo

O menino Eduardo da Silva Melo do Acampamento Santa Cruz, tem apenas seis anos, gostou de desenhar e declarou que aprendeu a fazer barraco. Quando perguntado sobre o que os seus pais faziam no acampamento, respondeu: “planta macaxeira, banana, couve, milho, melancia, muitas coisas”.


O

Já Maria Cledja Oliveira dos Santos, de 11 anos, do Assentamento Rio Bonito que participa pela primeira vez de uma ocupação em Maceió fez questão de desenhar o seu paraíso que é composto por sol, árvores, pássaro, cavalo, borboleta e muita terra para plantar.

Tv Gazeta exibe reportagem especial sobre educação no campo

A TV GAZETA afiliada da Rede Globo no Estado de Alagoas, exibiu no último domingo (13.02) no programa Gazeta Rural uma reportagem especial com duração de 6min e 24seg, sobre a educação no campo em áreas acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra.

Também divulgou o projeto "Cultivando música, cultivando arte, cultivando a vida camponesa", aprovado no Programa Ação para Crianças da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). O projeto sócio-cultural irá contribuir ainda mais para a transformação das crianças acampadas, que terão acesso ao conhecimento diversificado e entretenimento; além de se afastar de atividades perigosas, vícios e criminalidade.

Para assistir ao vídeo, é preciso clicar no link ao lado: http://gazetaweb.globo.com/v2/videos/video.php?c=9679.

Centro Irmã Doroti da Amigreal Irã receber Centros de Inclusão Digital


O Governo de Alagoas terminou a fase de seleção do projeto de inclusão digital, DigitAlagoas. Foram aprovados 38 telecentros - 21 em Maceió e 17 no interior, dos quais 90% atendem ao meio Rural. As entidades estão finalizando os ajustes, enquanto o Instituto de Tecnologia do Estado (Itec) articula a entrega dos equipamentos.

A meta inicial

do projeto é de 50 telecentros, mas nem todos os inscritos atenderam as exigências necessárias para a implantação. Ainda neste mês de fevereiro, o Itec pretende reabrir as inscrições para mais 12

telecentros. O edital será publicado pelo site ‘www.digitalagoas.al.gov.br’, onde serão feitas as inscrições.

Dos 38 aprovados, 2 unidades estão em fase final de montagem. A comunidade Virgem dos Pobres e a Colônia dos Pescadores são as primeiras beneficiadas pelo projeto. As demais estão aguardando os equipamentos e a conectividade - antenas Gesac disponibilizadas pelo Ministério das Comunicações.

“As antenas serão priorizadas para os locais onde não há outra forma de conectividade disponível, como a Zona Rural, e para entidades que não tiverem como custeá-la. Algumas resolveram, por conta própria, arcar com o serviço”, informa o gerente de projetos, Robson Paffer.

O trabalho de seleção foi feito a partir de análise de documentos e vistoria nos locais onde serão instalados os telecentros. “Durante as vistorias e assinatura dos convênios estivemos em contato direto com os responsáveis pelos telecentros, alguns que trabalharam bastante para se adequarem às exigências e levarem essa oportunidade para suas comunidades. É um projeto que inicia mudando a realidade de muita gente”, expõe o superintendente do Itec, Nelson Menezes.

Comunidade pela inclusão

Exemplo de comunidade que tomou as rédeas pela Inclusão digital é a dos agricultores que fazem parte da Associação dos Moradores de Igaci e Microrregiões do Estado de Alagoas (Amigreal), localizada no Centro Irmã Doroti no sítio Nova América.

“Adequamos o espaço em mutirão. As comunidades formaram brigadas para construção e se mobilizaram para conseguir os recursos. Fizemos desde a construção até a parte elétrica neste sistema, que foi liderado pelo agricultor seu João Geronimo, morador da lagoa do Fim do Mundo em Cacimbinhas. Quando o Itec pediu um prazo, pensamos se conseguiríamos, mas trabalhamos para isso”, conta o coordenador estadual da Amigreal, Adriano Ferreira.

A Amigreal foi uma das selecionadas e vai trabalhar a inclusão digital voltada para os agricultores e seus filhos, de modo a fazer uma integração com as práticas agroecológicas para fortalecer a produção através da informação. “A comunidade é ribeirinha, decendentes de quilombolas, pessoas que nunca viram computadores. O telecentro vai engrandecer esses agricultores”, completa Adriano.

18h35, 11 de Fevereiro de 201

Fonte:Itec

Veja a matéria http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=100483

Agronegócio domina lista dos mais ricos do Congresso

Do Congresso em Foco

A elevada concentração de renda no Brasil está explícita no novo Congresso. Metade de todo o patrimônio declarado pelos 567 congressistas empossados está nas mãos de apenas dez parlamentares, ou seja, de menos de 2% dos eleitos em outubro na Câmara e no Senado. Do montante de R$ 1,6 bilhão em bens declarados pelos 513 deputados e 54 senadores, R$ 792 milhões estão em nome desse pequeno grupo de multimilionários.

Os dados fazem parte de levantamento feito pelo Congresso em Foco com base em informações prestadas pelos então candidatos à Justiça eleitoral. Na média, cada parlamentar declarou possuir R$ 2,9 milhões em imóveis, empresas, fazendas, veículos, objetos de arte, dinheiro em espécie e aplicações financeiras, entre outros bens.

O parlamentar com maior patrimônio declarado vem do estado com pior índices de desenvolvimento humano (IDH) e uma das menores rendas per capita do país, Alagoas. De volta à Câmara após quatro anos, o deputado João Lyra (PTB-AL) tem uma fortuna declarada de R$ 240,39 milhões.

O petebista, que já foi senador, é dono de um império que reúne mais de dez grandes empresas no estado, entre as quais usinas sucroalcooleiras, fábrica de fertilizantes, empresas de táxi aéreo, de comunicação e concessionária de veículos. A renda per capita gira em torno de R$ 6 mil em Alagoas, estado com um dos maiores índices de analfabetismo e mortalidade infantil do país.

O grupo dos maiores milionários do novo Congresso é formado por seis deputados e quatro senadores. Há representantes das cinco regiões do país e de dez estados. São três do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), dois do Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), dois do Nordeste (Alagoas e Ceará), dois do Norte (Amazonas e Rondônia) e um do Sul (Paraná). Eles são de cinco partidos políticos: três do PMDB, dois do PR, do PP e do PSDB e um do PTB. Não há nenhuma mulher entre eles.

A força do agronegócio

Depois do deputado João Lyra, o dono da maior fortuna é o senador Blairo Maggi (PR-MT). O ex-governador de Mato Grosso é proprietário do Grupo Amaggi, um dos maiores produtores e exportadores de soja do Brasil, com negócios em diversas atividades econômicas, incluindo logística de transportes, pecuária e produção de energia elétrica.

Blairo já foi considerado o maior produtor individual de soja do mundo, responsável por 5% da produção anual do grão brasileiro. Em 2005, o então governador foi “homenageado” pela ONG Greenpeace com o prêmio Motoserra de Ouro. A organização não-governamental acusou o então governador de contribuir com o desmatamento para plantar soja no estado.

O terceiro mais rico também tem fortes ligações com o agronegócio. Reeleito para o segundo mandato consecutivo, o deputado Alfredo Kaefer (PSDB-PR) informou ter R$ 95,7 milhões em bens. Mais da metade da riqueza do paranaense tem como origem cotas da Diplomata Industrial e Comercial, uma das maiores produtoras de aves para abate do país.

Mabel e Maluf

Entre os multimilionários estão o deputado Sandro Mabel (PR-GO), dono do quinto maior patrimônio declarado, com R$ 70,9 milhões. Candidato derrotado na disputa pela presidência da Câmara ontem, o deputado é dono da fábrica de biscoitos e roscas Mabel.

Logo atrás dele, aparece o deputado Paulo Maluf (PP-SP), com R$ 39,4 milhões em bens. Em março do ano passado, Maluf entrou para o chamado livro vermelho da Interpol. O deputado pode ser preso se deixar o país.

Ele foi denunciado por um promotor de Nova York por suposta “conspiração com objetivo de roubar dinheiro da cidade de São Paulo a fim de possuir fundos no Brasil, Nova York e outros lugares, e ocultar dinheiro roubado". Maluf nega a acusação. Ele conseguiu a vaga na Câmara após reverter uma condenação na Justiça em São Paulo, que havia barrado sua eleição com base na Lei da Ficha Limpa.

O poder econômico dos parlamentares reflete a concentração de riqueza no Brasil, um dos países com pior índice de distribuição de renda no mundo. Embora a distância entre pobres e ricos tenha caído nos últimos anos, pesquisa divulgada em 2008 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que os 10% mais ricos no Brasil concentram 75% da riqueza produzida no país.

PMDB e DEM concentram os mais ricos

Dos 567 parlamentares empossados esta semana, 220 (39%) declararam à Justiça eleitoral possuir mais de R$ 1 milhão em patrimônio. O governista PMDB e o oposicionista Democratas são os partidos que concentram o maior número de deputados e senadores recém-empossados com bens declarados acima de seis dígitos. Os dados foram levantados pelo Congresso em Foco no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O DEM é a legenda com mais deputados e senadores eleitos em outubro com patrimônio superior a essa cifra: 29 (64,4%) de seus 45 representantes. Em números absolutos, o partido só perde para o PMDB, que tem 42 de seus 95 congressistas em início de mandato nessa condição financeira. Assim como o DEM, outras quatro bancadas no Congresso têm pelo menos metade de seus integrantes com patrimônio “milionário”. São elas: PTB, PR, PP e PSDB. Apenas 14 dos 98 petistas recém-empossados informaram ter bens acima dessa cifra.

O parlamentar do DEM com o maior patrimônio é Paulo Magalhães (BA), sobrinho do ex-senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA), morto em 2007. Ele declarou ao TSE ter R$ 14 milhões em bens. Boa parte deste montante (R$ 9,5 milhões) está dividida entre nove fazendas na Bahia. Uma delas está avaliada em R$ 3,3 milhões. De acordo com o site da Câmara, Magalhães é administrador de empresas.

O valor declarado por Magalhães, o primeiro de seu partido, no entanto, está longe do patrimônio declarado pelo peemedebista mais abastado. O empresário Newton Cardoso (MG), ex-governador de Minas Gerais, foi eleito para uma cadeira na Câmara. Um dos mais ricos de toda a legislatura que tomou posse há dois dias, ele declarou possuir R$ 77,9 milhões à Justiça Eleitoral.

Entre os bens declarados, estão ações de variadas empresas, 11 automóveis, casas e outros imóveis. Em 2009, ele se viu envolvido em uma polêmica sobre seu patrimônio. A então deputada Maria Lúcia Cardoso (PMDB-MG) declarou que o ex-marido usava empresas offshore para administrar parte do patrimônio. A ex-mulher de Newton Cardoso, no processo de separação litigiosa, estimou na ação que ele tivesse bens avaliados entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões. Ele negou as acusações de Maria Lúcia.

Atrás de Newton Cardoso está o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE). O peemedebista possui R$ 36.737.673,19, divididos em quatro carros e imóveis comerciais e rurais em Brasília, Ceará, Minas Gerais, Goiás. Também possui cota de 50% da construtora Therma e possui 98% das ações da empresa de vigilância Confederal.

A firma teve seu nome ligado ao mensalão do Arruda, em 2009, escândalo que revelou um esquema de propina envolvendo membros do Executivo e do Legislativo do Distrito Federal. O jornal O Estado de S. Paulo reportou no ano passado que a Confederal assinou um contrato de R$ 2,6 milhões sem licitação. O peemedebista disse que se afastou do comando da empresa em 1998.

As duas maiores bancadas estaduais, a de São Paulo e a de Minas Gerais, também concentram maior número de parlamentares com mais de R$ 1 milhão: são 26 mineiros e 35 paulistas. Mas, quando se leva em conta o tamanho da representação estadual, os maiores índices ficam por conta de Distrito Federal, Paraná, Mato Grosso, Piauí, Tocantins e Rio Grande do Norte. Eles têm metade ou mais de seus congressistas com bens superiores a R$ 1 milhão.

Os paulistas são responsáveis por R$ 163 milhões. Ou seja, a bancada de São Paulo possui 10,1% dos bens declarados por todos os novos parlamentares.

Na terça-feira, 55 parlamentares mineiros tomaram posse. Apesar de a bancada ser menor que a paulista, a soma dos bens é um pouco maior do que a do maior estado do país: R$ 164,5 milhões. A diferença é de R$ 1,4 milhão.

O levantamento foi feito com base nas informações prestadas pelos parlamentares ao registrarem a candidatura na Justiça eleitoral. Não entrou na conta o patrimônio declarado pelos senadores em meio de mandato. A declaração deles foi registrada em 2006.

Fonte:MST

Ir. Dorothy: Uma sagrada herança a ser defendida "Qual o seu legado, qual a sua herança? A herança de Ir. Dorothy é a certeza de que não estamos sós,

"Qual o seu legado, qual a sua herança? A herança de Ir. Dorothy é a certeza de que não estamos sós, de que juntos podemos muito mais do que sozinhos, é a certeza de que quando acreditamos no Estado de direito e procuramos as pessoas certas, fazendo as pressões certas, buscando o caminho certo, nada pode dar errado. Que a força do povo organizado, que busca garantir a manutenção de seus direitos e exercer os seus deveres é imensurável."

Leia artigo de Pe. Carlos Augusto Azevedo da Silva, presbítero, incardinado na Arquidiocese de Belém, Pároco de Sta. Maria Goretti, no bairro do Guamá, Belém-PA publicado no blog Comitê Dorothy.

Ir. Dorothy! Uma sagrada herança a ser defendida!

Era dia 12 de fevereiro de 2005, no meio da floresta Amazônica, no município de Anapu – PA, no lote 55 do PDS chamado “Esperança”. Eis a cena: Um corpo estendido no chão, uma senhora, alvejada com seis tiros, imersa numa poça de sangue e com o corpo molhado pela chuva, típica dessa época do ano.

Essa mulher tinha um nome Dorothy Stang. Era Ir. Dorothy, missionária norte-americana, naturalizada brasileira, que doou a maior parte de sua vida no auxílio aos que mais precisavam, fazendo-se pobre entre os pobres, sendo sua voz, sendo sua força, sendo sua esperança. Quando mataram Ir. Dorothy, eles tentaram matar a esperança de todo um povo. Um povo sofrido pelo avanço das fronteiras agrícolas, que por causa do Agronegócio, que enriquece a uns poucos mega fazendeiros, destrói a vida de milhares de inocentes.

Esse povo é o povo simples da floresta, que consegue conviver com ela sem derrubá-la, que preserva a natureza e conhece a terra como ninguém. Esse povo é o povo que sofre vendo a madeira sendo roubada. Esse povo é o povo que sofre vendo a terra sendo-lhes tirada. Esse povo é o povo que sofre vendo e sentido a força da pólvora e do chumbo que ceifa a vida de famílias inteiras, através da violência dos pistoleiros e do dinheiro dos grileiros. Esse povo é o povo que não tinha voz, que não tinha esperança, que não tinha força, mas encontrou naquela senhora o alívio de suas dores.

Ela lhes deu voz juntos às autoridades, ela lhes deu visibilidade em meio ao mundo globalizado, ela assumiu para si uma luta que não era sua, mas passou a ser quando no ímpeto de fazer Jesus conhecido e amado, conheceu o sofrimento desse povo a passou a sofrer com ele suas dores.

Ir. Dorothy era muito mais que uma simples religiosa que anunciava o Evangelho, era uma mulher de fibra que vivia o Evangelho, que encarnava o Evangelho em sua vida. Muito mais que pregadora da Palavra de Deus ela era Testemunha e semeadora do Reino de Deus. Era muito mais que líder, era liderança! Era muito mais que amiga, era amor! Era muito mais que conselheira, era exemplo!

Qual o seu legado, qual a sua herança? A herança de Ir. Dorothy é a certeza de que não estamos sós, de que juntos podemos muito mais do que sozinhos, é a certeza de que quando acreditamos no Estado de direito e procuramos as pessoas certas, fazendo as pressões certas, buscando o caminho certo, nada pode dar errado. Que a força do povo organizado, que busca garantir a manutenção de seus direitos e exercer os seus deveres é imensurável. A certeza de que diante do gigante Golias que é o Agronegócio, a grilagem de terras, nós somos o pequeno, porém corajoso, Davi, que com cinco pedrinhas derruba o gigante.

Seis anos após seu martírio, somos levados a olhar o que essa mulher nos deixou. Ir. Dorothy nos deixa como legado a responsabilidade de preservar a floresta de pé. A responsabilidade de denunciar todo e qualquer tipo de ameaça a integridade da floresta e de seu povo. Ela nos deixa como legado um povo que soube se organizar e hoje já começa a produzir. Onde há seis anos existia uma esperança, hoje existe uma realidade.

No entanto, ainda paira o medo no ar. Os pistoleiros ainda tiram a vida de trabalhadores indefesos, a madeira ainda é retirada, terras continuam a ser roubadas, assassinos ainda andam à solta pelas ruas. Tudo pelo que Ir. Dorothy lutou ainda não foi conquistado plenamente. Por isso essa herança não é só para ser relembrada, mas para ser defendida.

Tentaram calar Ir. Dorothy, mas hoje nós somos sua voz, quiseram pela força das balas acabar com um sonho, mas hoje nós somos os grandes responsáveis de fazer o sonho se tornar realidade. Ir. Dorothy, não foi enterrada, ela foi semeada! E nós somos os frutos dessa semeadura, nós temos a imensa responsabilidade de fazer com que a voz que vem da floresta ressoe cada vez mais alto, pelo mundo todo.

“A morte da Floresta é a nossa morte”, Temos que conscientizar o mundo do que acontece no nosso Pará, temos que mostrar ao mundo as atrocidades que ainda são cometidas. Ir. Dorothy foi assassinada, mas continuará viva enquanto houver um coração que ame a floresta e lute por ela.

Celebramos seis anos de sua morte, não com tristeza, nem ódio, mas com uma esperança renovada, porque a cada dia mais pessoas se unem ao nosso coro, a cada dia mais pessoas assumem para si essa luta que não era apenas a luta de Ir. Dorothy, nem mesmo a luta de um povo. Mas essa luta, que hoje assumimos também para nós, é a luta por uma Amazônia Livre!

A esperança não foi vencida, a luta não terminou, a morte não teve a ultima palavra. A dor deu lugar à garra, o medo deu lugar à coragem, a incerteza deu lugar à confiança. O sonho não acabou, a batalha ainda não chegou ao fim, mas cantamos com esperança renovada: “Vai ser tão bonito se ouvir a canção, cantada de novo. No olhar da gente a certeza de irmãos, reinado do povo!”

Dorothy vive!

NOTA DE ESCLARECIMENTO SOBRE O FECHAMENTO DA ESCOLA MUNICIPAL DOM BOSCO

NOTA DE ESCLARECIMENTO SOBRE O FECHAMENTO DA ESCOLA MUNICIPAL DOM BOSCO E AS CONSTANTE TENTATIVA DE CRIMINALIZAÇÃO DA AMIGREAL

IGACI -AL, 08 de fevereiro de 2011.

Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e,excepcionalmente,em família substituta,assegurada a convivência familiar e comunitária,em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes; Art.19. ECA

A AMIGREAL, vem por meio desta nota, esclarecer a sociedade alagoana,autoridades e os meios de comunicação sobre o fechamento da Escola municipal Dom Bosco no sitio lagoa da Abóbora município de igaci,onde aproximadamente 40 crianças e adolescente estão sendo obrigadas a se deslocarem da sua comunidade e do seio familiar para estudar na cidade por determinação do prefeito Antonio Barbosa , e do Secretario Municipal de Educação Aroldo Ferro que a comunidade estava organizada na AMIGREAL, No ultimo dia 07 de fevereiro de 2011 fechou a Escola e determinou E ainda proibiu que as famílias se reuni na escola publica a qual o terreno foi doado pela comunidade.. esta comunidade não e a única a receber represaria recentemente ao um ano atrás a comunidade de cajazeira onde temos 30 famílias organizada no grupo de base da amigreal.A Escola municipal Antonio Barbosa foi fechada e 200 metro seria implantado um lixão se amigreal não tivesse intervido

AMIGREAL é uma organização que luta por justiça social e comprometida com efetivação dos direitos humanos e vida digna para as famílias camponesas de Alagoas-Brasil, que apoiamos as lutas dos trabalhadores que lutam por soberania alimentar e pela reforma agrária.

Nossa organização chama-se Amigreal uma organização popular de camponeses e camponesas, mas estamos caminhando para ser um movimento social de luta em defesa dos direitos dos camponeses do Brasil. Amigreal foi fundada em 08 de janeiro de 2005 e surgiu da necessidade de organizar a classe trabalhadora para lutar contra a atual situação de opressão e coronelismo. AMIGREAL é composta por camponeses homens e Mulheres lutadores popular. A organização é através dos grupos de famílias/base. É coordenado por uma seqüência de instancias, chamadas coordenação de grupo de base, de municipal e estadual, os coletivos da Educação, capitação de recursos, produção , comercialização e comunicação. Atualmente estamos presente em 14 municípios do estado de Alagoas somos aproximadamente 1.000 famílias organizadas nas regiões do agreste sertão alagoano.

A Amigreal trabalha com as famílias e busca a sua participação ativa na luta pela defesa de seus direitos e pela construção de projeto popular para Alagoas e que se propõe produzir comidas saudáveis, abundantes e baratas para o auto-consumo e alimentação dos trabalhadores/as urbanos, resgatando a identidade e a cultura camponesa, com suas diversidades regionais. É um organização que, junto com outros setores da sociedade, está comprometido com a conquista de uma nação soberana, autônoma e justa.

Somos a soma da diversidade do nosso estado. Pertencemos á classe trabalhadora, lutamos pela causa social e pela transformação da sociedade.

Lutar sempre foi nossa condição desta forma, construímos nossa organização popular autônomas de moradores.Em nossa trajetória, temos reafirmado a luta popular pela igualdade de direitos e pelo fim de qualquer forma de violência, opressão e exploração praticada contra a classe trabalhadora

Por isso ao longo destes 6 anos de historia da amigreal,ocorreram varias tentativa de criminalização de nossas bandeiras de luta, como desde a luta pela água a ate luta pela Terra, por parte do prefeito de igaci e seus aliados( onde nasceu amigreal e atualmente fica secretaria da amigreal) esta perseguição vai desde do impedimento dos agricultores e agricultoras da amigreal em ter o acesso as políticas publica ofertada pela prefeitura município de Igaci ate pressão psicológica e ameaça contra as nossas lideranças desta vez foi o fechamento da Escola municipal Dom Bosco,

Estas tomadas de decisões por parte do poder publico local tem com objetivo mais vez uma criminalizar e cortar o que julgam ser o "mal pela raiz": a educação das crianças, polarizando as Escola onde existe povo organizado da AMIGREAL, uma vez que o povo organizado tem a plena convicção que precisa ter um olhar diferenciado para o campo pois este ao longo do tempo tem sido desvalorizado no que corresponde a garantia de direitos fundamentais que vise a perpetuação da vida, o conceito vida deve estar articulado a direitos garantidos com qualidade de acordo com a realidade local, por isso a luta da AMIGREAL, é em defesa da vida e pela garantia dos direitos sociais e humanos para os povos do campo. assim defendemos um educação do campo onde os educandos possa compartilhar a realidade da família na comunidade , como diz o Art.19. “Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e,excepcionalmente,em família substituta,assegurada a convivência familiar e comunitária.”

Parecer que todos desconhece as lei como a LDDEN 9394/1996, no Parecer CNE Nº. 36/2001, na Resolução CNE/CEB 1, DE 03 DE ABRIL DE 2002 - Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, Parecer CNE/CEB Nº. 1/2006, Parecer CNE/CEB Nº. 3/2008, Resolução CNE/CEB Nº. 2/2008, Lei Nº. 6.757/2006 Plano Estadual de Educação – AL 2006 a 2015 e mais recente Resolução CNE/CEB Nº. 4 de 13 de julho de 2010 – Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica

Diante da desresponsabilização do município de igaci para com a educação do campo, queremos demonstrar a nossa indignação e dizer que a Educação do campo faz parte das bandeiras de luta da amigreal e dos movimentos sociais em Alagoas, uma vez que 80% da população alagoana vivem no campo.

Portanto, cobramos a responsabilização do município de igaci para que a educação do campo, corresponda à construção de uma identidade camponesa uma vez que esta vem perdendo sua identidade diante das investidas neoliberais, que vem buscando retirar de cena as nossas conquistas e que ao longo da historia nos povos do campo construirmos, Ressaltamos ainda que a Escola municipal Dom Bosco é um espaço pedagógico conquistado pela comunidade do Sitio abóbora e único bem da comunidade pois a mesma é disassistida por toda políticas publica exclusive de saúde sendo assim merecemos respeito exigimos a reabertura da escola dom Bosco em lagoa da abóbora e da Escola Antonio Barbosa em cajazeira e efetivação das políticas de educação básica nas escolas no / do campo e fim da polarização das escolas do campo e fim da criminalização da amigreal.

“Educação do Campo “direito de todos dever do Estado”.

Atenciosamente

Coordenação estadual

Pedimos aos companheiros e companheiras que escreva para endereço abaixo,apoiando no manifesto em defesa da educação do campo

Endereço para se comunica com as autoridades

Promotoria de Justiça de Igaci.

DESIGNADO: Rogério Paranhos Gonçalves

ENDEREÇO: Rua Juca Tenório, 74 - CEP 57620-000

BAIRRO: Centro

TELEFONE: 82 3423-1157

Procurador-Geral de Justiça

Eduardo Tavares Mendes
R. Dr. Pedro Jorge Melo e Silva, 79, Poço, 4.º andar, Maceió-AL
Fone: 82. 2122-3516
ascom@mp.al.gov.br
cerimonial@mp.al.gov.br


Conselho Estadual de Direitos Humanos de Alagoas
Rua Senador Mendonça, 153 Sala 126
Ed. Muniz Falcão (Sede do Antigo Fórum da Capital)
CEP: 57000-000 Centro Maceió AL Telefax: (82)221.7960 (Galdino) / (92) 9351-3707
E-mail: ceddh.al@bol.com.br

CONSELHO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE ALAGOAS

Endereço Av. Fernandes Lima, S/N - CEAGB - Farol

Cidade Macéio-AL

CEP 57.055-000

Fone (082) 358-4090/358-4092

Fax (082) 358-4091

E-mail

lindizaycee.al@ig.com.br

CONSELHO ESTADUAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE DE ALAGOAS
Pres. MARIA DAS GRAÇA BEZERRA
End.: Rua Zadir Índio , 220, Ed. Luz , centro
CEP: 57.020-480 – Maceió/AL
Tel (082) 3315-1739 / (82) 3336-2587 Cel. Pres. (82) 8833-9350
Fax : 082.221.3640-e-mail: mdgracinha@yahoo.com.br8

HOMENAGEM: A RAQUEL PEREIRA, DEFENSORA DA VIDA E DE UMA EDUCAÇÃO LIBERTADORA.

Raquel Pereira hoje faz 7 dias foste mora na casa do pai,
Não morrestes, pois acreditamos que tu estás viva.
Uma lutadora do povo nunca morre
Teus sonhos de uma sociedade justa e de uma Educação libertadora
Não morreram continua firma,na memória e na vida dos camponesas e camponeses de cada um que faz parte da Amigreal
Tu estivesse presente entre nos, compartilhando nossas lagrimas,foste perseguida e sonhaste como nos em sociedade socialista
Reconhecemos-te como lutadora do povo, em defesa da vida e da libertação.
E como diz Dom Pedro Casaldáliga
A grande verdade é que só vence aquele que continua,
aquele que persiste, aquele que tem esperança e sabe passar a bandeira às novas
gerações. Eu continuo cada vez com mais esperança. Essa é a minha vitória
Igaci-AL,28 de janeiro de 2011

Fraternalmente
Coordenação da Amigreal

A Via Campesina Brasil e a questão das sementes

1. As sementes e a origem da civilização

No princípio, o ser humano vivia de plantas silvestres, da caça e da pesca. Pouco a pouco, as pessoas foram observando as plantas de seu interesse, selecionando e utilizando aquelas que lhes davam mais rendimento. Assim, as plantas que produziam frutos e sementes comestíveis foram as primeiras a serem aproveitadas na alimentação.

A agricultura teve origem nas regiões montanhosas dos países de clima quente e temperado. As plantas cultivadas se espalharam pelo mundo principalmente através da migração humana.

Da pré-história aos tempos atuais, o milho, a batata e otomate saíram da América e foram para a Europa. O arroz saiu da Ásia e veio para a América. Com o passar do tempo, essas plantas se adaptaram em cada região onde eram cultivadas e selecionadas pelos processos naturais e simples dos agricultores. E assim surgiram as sementes rústicas, muitas delas bem adaptadas e totalmente conhecidas pelos agricultores.

A partir do início do século XX, os recursos genéticos vegetais, uma herança comum de toda a humanidade há mais de 10.000 anos, foram sendo transformados, gradual e crescentemente, em propriedade de um reduzido grupo de empresas privadas estadunidenses e européias.

Soberanos, Escravos e Tiranos

Os agricultores e principalmente as agricultoras, foram os primeiros cientistas empíricos da humanidade. Desde os tempos mais remotos, os agricultores têm conservado, selecionado e melhorado suas sementes para semeadura, inclusive realizando trocas com outros grupos camponeses, num processo de partilhas que lhes permitiam aumentar a diversidade genética à sua disposição. Com essa prática milenar, o resultado foi uma impressionante diversidade de cultivos e variedades utilizadas na produção agrícola.

Há muito tempo já se sabe que existem regiões em que a diversidade de espécies é maior. Esses locais se chamam Centros de Diversidade: regiões ao redor do mundo que abrigam reservatórios de material genético que pode ser transferido para plantações através de técnicas tradicionais de melhoramento genético.

E é nos países mais pobres, nos países do terceiro mundo, que se encontra a maior variedade de espécies. Para se ter uma idéia do problema, na década de 1970, das 200 espécies vegetais cultivadas na Califórnia – Estados Unidos, nenhuma era originária daquele país.

Daí a importância das sementes para o que chamamos de SOBERANIA ALIMENTAR, quando um povo tem o direito de definir sua própria produção, distribuição e consumo de alimentos. Um povo que não produz sua própria comida é povo escravo, pois depende de outros povos para se alimentar. Nenhuma nação será soberana se não tiver o domínio da produção de suas sementes.

Hoje, está se perdendo grande parte desta diversidade. Muitas dessas variedades estão desaparecendo e se extinguindo. Com o modelo capitalista de “modernização” da agricultura, a diversidade está drasticamente reduzida e o agricultor tornando-se cada vez mais dependente da aquisição dos cultivares impostos pelos pacotes tecnológicos.

Antes, as sementes pertenciam aos povos camponeses e indígenas. Pertenciam a toda a comunidade, era um bem comum, um símbolo da vida. Tanto que, em muitas culturas, as sementes eram vistas como algo sagrado.

Hoje, as sementes se tornaram mercadoria. Representam apenas negócios, lucros e a exploração e o domínio dos produtores rurais de todo o mundo por grandes empresas capitalistas multinacionais.

Não foi por acaso que as grandes empresas multinacionais de venenos abocanharam as empresas de produção de sementes. O negócio é extremamente lucrativo para elas, pois, junto com a venda das sementes, são vendidos ao agricultor os agrotóxicos e os adubos químicos que elas próprias – as multinacionais - industrializam. A semente, hoje industrializada pelos grandes monopólios, é um produto viciado, isto é, está drogada, pois só se reproduz se esse pacote agronômico for seguido à risca.

Essa apropriação privada da geração, reprodução e distribuição de novas variedades de sementes pelas empresas privadas multinacionais, assim como o controle da oferta dos insumos que elas requerem, vêm submetendo os povos de todo o mundo a uma tirania de novo tipo.

2. A “Revolução Verde” e seus prejuízos

Toda essa tecnologia foi introduzida com a chamada“Revolução Verde”. Em vez de aumentar o desenvolvimento dos povos, fez com que eles ficassem cada vez mais dependentes da indústria agroquímica. Com o monopólio da produção das sementes; e o desaparecimento da diversidade genética, o futuro da humanidade está em risco.

Agora, a segunda fase da “Revolução” está em pleno andamento, com a expansão dessas multinacionais no controle da produção e o comércio de sementes; e, quem controla as sementes, controla todo o sistema alimentar.

O mecanismo é simples e fácil de entender: as multinacionais controlam a produção e o comércio de sementes que são “melhoradas”, eliminando as resistências naturais e aumentando a vulnerabilidade das culturas. Cria-se, assim, a dependênciados agrotóxicos. As multinacionais que fabricam agrotóxicos são as mesmas que controlam o “melhoramento”, a produção e a comercialização das sementes. A uniformidade genética leva à perda de variedades e à vulnerabilidade das plantas às pragas e doenças.

Fecha-se o cerco da dependência, e as plantas transgênicas coroam o esquema. Eis porque as multinacionais estão tão interessadas em patentear variedades e cultivares de plantas. É a proteção oficial de sua pirataria e banditismo.

Os povos pré-históricos alimentavam-se de mais de 1.500 espécies de plantas e pelo menos 500 dessas espécies e variedades têm sido cultivadas ao longo da história. Hoje, alimentamo-nos basicamente com apenas 30 vegetais cultivados e, desses, trigo, arroz, milho e soja representam mais de 85% do consumo de grãos.

A agricultura de subsistência cultiva as principais plantas alimentícias há mais de 10.000 anos. Privá-los desse recurso é, pelo menos, uma perversidade, até porque o agricultor de subsistência é um melhorista nato, porque sempre, há milênios, tem reservado para o próximo plantio, as sementes das melhores plantas.

Ao privá-lo dessa possibilidade, o agricultor se vê roubado em sua herança mais significativa, equilibrada e barata, que são as variedades locais cultivadas há milênios. Por outro lado, a segurança do abastecimento e a base para um amplo melhoramento vegetal estão ligadas a que os agricultores se mantenham no ambiente rural. Essas famílias protegerão, como têm feito há milênios, os recursos genéticos vegetais melhor do que qualquer banco de genes.

As sementes são herança comum de todos os povos e não podem ser apropriadas por quaisquer empresas privadas. O acesso ao material genético é um direito natural da humanidade. Não tem dono!

3. A biotecnologia e os transgênicos

São três as causas principais da tirania econômica, social e política determinada pelo monopólio mundial das sementes:

a) A primeira causa é o crescente desenvolvimento dos métodos e técnicas de melhoramento de plantas por empresas privadas. Esses métodos produziram um grande número de sementes congênitas, híbridas, sintéticas; contemporaneamente, produziram também organismos geneticamente modificados (OGM), conhecidos como transgênicos. Para que apenas essas empresas pudessem se beneficiar com os resultados dessa tecnologia e garantir grandes lucros, os governos de vários países em todo o mundo foram pressionados a aprovarem leis que garantissem os direitos dos melhoristas e o patenteamento dos seus produtos. São as chamadas LEIS DE PATENTES. Aproveitando-se dessas leis, as grandes empresas saqueiam e roubam nossa diversidade, registram em seus nomes plantas que nossos ancestrais sempre utilizaram e, ao mesmo tempo, proíbem outras pessoas e empresas de aproveitarem os melhoramentos genéticos.

b) Uma segunda causa foi a diminuição paulatina dos investimentos dos governos nas áreas de pesquisa em agricultura, tanto em empresas públicas de assistência técnica quanto em universidades. Assim, a geração de conhecimentos e de descobertas só poderia favorecer a acumulação capitalista das corporações privadas. Para isso, os governos tomaram várias medidas beneficiando grandes empresas, tais como:

· A redução dos recursos públicos para a pesquisa na agricultura;

· O fechamento de centros de pesquisa ou a redução drástica do seu pessoal;

· A realização de acordos e convênios entre as instituições governamentais e empresas privadas para a realização de pesquisas, tendo em vista os financiamentos efetivados pelas empresas;

· O amplo e continuado processo de formação de pessoal no exterior em universidades altamente dependentes de financiamentos privados, com a conseqüente ideologização da pesquisa a partir dos interesses das empresas privadas;

· A cooptação de pesquisadores pelas fundações e empresas privadas através de bolsas de estudos avançados, de créditos para a pesquisa, de viagens ao exterior para a participação em simpósios, congressos e encontros, de participação comercial pela venda dos produtos gerados;

. As pressões econômicas, políticas e ideológicas (os“lobbies”) sobre os parlamentares e os dirigentes do Poder Executivo para a aprovação de legislação favorável aos interesses da privatização da pesquisa na agricultura e a redução dos orçamentos para a pesquisa e para a formação avançada de pessoal das instituições públicas;

A posição alienada de grande parte dos pesquisadores da agricultura que, em nome da ciência, aceitam a hegemonia dos interesses privados na geração de conhecimentose a transformação do saber em “capital”.

c) A terceira causa é conseqüência das duas primeiras: a perda continuada da capacidade dos agricultores de produzirem as suas próprias sementes.

Como as políticas públicas incentivavam o uso de sementes melhoradas como as híbridas e, em alguns países, as transgênicas, cujas patentes eram e são propriedades privadas, as sementes dos camponeses deixaram de ser uma alternativa de plantio e foram desaparecendo dos mercados. A intenção das grandes empresas é reduzir cada vez mais a variedade de sementes. Desta forma, as sementes crioulas são perdidas de propósito, porque apresentam alta variabilidade. A tendência é para uma base genética limitada. Com esta eliminação aos poucos das sementes “crioulas”, o agricultor perdeu em diversidade genética, mas também foi perdendo sua auto-estima, sua capacidade de melhorar geneticamente as sementes. Foi perdendo seu papel e sua identidade.

A armadilha funciona assim: quando se extinguem variedades tradicionais de sementes, as comunidades perdem uma parte de sua história e de sua cultura. As espécies vegetais perdem uma parte de sua diversidade genética. As gerações futuras perdem algumas opções e a geração presente perde a confiança em si mesma. O tipo de semente que o amponês semeia determina em grande medida suas necessidades de fertilizantes e agrotóxicos. A semente influi na necessidade do maquinário e determina qual é o mercado para a colheita... As comunidades que perdem as variedades tradicionais, que, durante séculos, adaptaram-se às suas necessidades, perdem o controle e tornam-se dependentes para sempre de fontes externas de sementes e de produtos químicos necessários para cultivá-las e protegê-las.

Quando as grandes empresas determinam o que o agricultor deve plantar, está determinando também o que nós devemos comer. Com poucas alternativas de alimentos e bombardeadas por propagandas dos meios de comunicação, o consumidor também se torna refém dessa armadilha.

Uma das formas usadas pelas grandes empresas para dominarem o mercado de sementes e convencerem governos a se submeter a seus planos é dizer que as sementes híbridas ou transgênicas combatem a FOME. Desde a década de 1950, justamente no início da “Revolução Verde”, que se afirma que é necessário aumentar a produtividade agrícola para combater a fome no mundo. A Organização para a Alimentação e a Agricultura – FAO, das Nações Unidas, foi uma das instituições multilaterais que estimulou a introdução de sementes híbridas no mundo com essa finalidade.

As grandes empresas se tornaram cada vez maiores. Compraram outras empresas, dominaram o mercado, controlaram os agricultores. E a fome continua. Hoje, em todo mundo, 800 milhões de pessoas passam fome e 2,4 bilhões são mal nutridas. Está claro que não falta alimento. Com a produção atual de alimentos, cada pessoa no mundo poderia comer todos os dias: 1,7 kg de cereais, feijões e nozes; 200 g de carne, leite e ovos; e 0,5 kg de frutas e vegetais.

A verdadeira causa da fome está no latifúndio e na falta de apoio à agricultura familiar, que marginaliza 1,35 bilhões de agricultores e suas famílias. E agora, mais uma vez, as grandes empresas repetem a história e o truque de que com as sementes transgênicas é possível acabar com a fome, desta vez apoiadas por um leque maior de poderosas organizações, como a Organização Mundial do Comércio – OMC, o Fundo Monetário Internacional – FMI, o Banco Mundial e os meios de comunicação de massa.

Os transgênicos não têm por objetivo acabar com a fome, mas sim aumentar o megafaturamento de algumas multinacionais. Para se ter uma ordem de grandeza desse mercado, se o Brasil admitisse a soja transgênica da Monsanto, essa empresa poderia abraçar um mercado de sementes e herbicidas de 2 a 3 bilhões de dólares/ano.

Caso a Monsanto consiga impor sua lei no Brasil, 80% das sementes “industriais” de milho passarão a ser transgênicas e todos os cultivos de milho serão contaminados. Vinte e cinco por cento do milho nos EUA é transgênico, mas 75% de todo o milho cultivado está contaminado. As empresas transnacionais apostam em uma contaminação geral dos cultivos no mundo, numa estratégia criminosa para impor seus interesses.

4. Saídas: Resistência, Associação e Cooperação

Cinco pontos podem ser considerados como fundamentais para a luta contra a tirania do domínio das sementes:

Lutar contra a propriedade intelectual de qualquer forma de vida;

Considerar os recursos genéticos como um patrimônio da humanidade;

Lutar para que os governos decretem moratória na bioprospecção exploração, coleção e recoleção, transporte e modificação genética) enquanto não existirem mecanismos de proteção dos direitos de nossas comunidades camponesas e indígenas para prevenir e controlar a biopirataria;

Considerar a biodiversidade como a base para garantira soberania alimentar, como um direito fundamental e ásico dos povos, posições essas que não são negociáveis;

Resgatar, cada um segundo suas possibilidades, e pôr em prática o plantio e a distribuição em massa das sementes “crioulas” de e em todo o mundo, como uma forma de resistência popular e de superação do modelo agrícola dominante.

(Texto elaborado pela Via Campesina gaúcha e publicado

Em janeiro/2003, durante o Fórum Social Mundial-Porto Alegre/RS

Agrotóxico, transgênicos e o novo agronegócio

Matéria publicada no site da revista Caros Amigos, em 17 de setembro de 2010.

Agrotóxico, transgênicos e o novo agronegócio

Relação imbricada entre as empresas produtoras de sementes transgências e agrotóxicos domina o agronegócio brasileiro em um novo modelo que rende cifras bilionárias para poucos e prejuízos à saúde de muitos

Por Débora Prado

A concentração no campo é conhecida inimiga na luta pela justiça social no Brasil. No País do agronegócio – em que usineiro é herói e a reforma agrária é divida histórica centenária – 2,8% das propriedades rurais são latifúndios que dominam mais da metade de extensão territorial agricultável do país (56,7%), segundo os dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) em 2006. Mas, a concentração no campo não se limita às propriedades. O oligopólio das fabricantes de sementes transgênicas e agrotóxicos se fortaleceu no Brasil nas últimas décadas, imprimindo um novo modelo de dominação que vai do campo para a cidade, rendendo cifras bilionárias para poucos e prejuízos à saúde de muitos.

Detentoras de grande capital, patentes, poderosos lobbies políticos e com um exército técnico e jurídico a sua disposição, essas companhias não conheceram a crise econômica. As vendas mundiais de agrotóxicos atingiram cerca de US$ 48 bilhões em 2009, o que significa que o faturamento das empresas deste setor é maior que o PIB de grande parte dos países no mundo. Entre 2000 e 2009, o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 94%, ao passo que o brasileiro subiu 172%.

Somente no ano passado, foram registrados 2195 agrotóxicos no mercado brasileiro, que movimentou US$ 6,8 bilhões, de acordo com dados da Sindag, o sindicato das empresas. Os dados foram apresentados pela integrante da Gerência Geral de Toxicologia da Anvisa, Leticia Rodrigues da Silva, em um seminário nacional contra o uso dos agrotóxicos promovido pela Via Campesina, em parceria com a Fiocruz e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) do MST.

Apesar das altas cifras, este é um mercado caracterizado pelo oligopólio e por um elevado grau de concentração – 13 empresas multinacionais respondem por 90% do mercado, sendo as 6 maiores (Syngenta, Bayer, Basf, Monsanto, Dow Quemical e DuPont) – responsáveis por 68%.

Já poderosas no setor de agrotóxicos, estas multinacionais investiram ainda na compra de inúmeras fabricantes de sementes no Brasil a partir da década de 1990 e, recentemente, criaram o crédito direto ao produtor, ampliando seus braços de controle sobre a produção de nacional. Para Leticia, isto significa que “a relação do agronegócio e da indústria de agrotóxico não é só de compra e venda, mas de subordinação”.

Além dos impactos econômicos e sociais desta dominação, a disseminação em escala industrial dos produtos fabricados por estas empresas é uma questão ambiental e de saúde pública. “No ano passado, por exemplo, a Anvisa começou a fiscalizar as empresas produtoras e encontrou irregularidades em todas, como adulteração de produtos que estavam com formulação diferente da registrada e comercialização de vencidos”, relata Letícia. Somente na Dow Chemical, em junho deste ano, foram interditados mais de 500 mil litros de agrotóxicos e um funcionário foi conduzido à polícia por tentativa de omissão de produto.

A Anvisa colocou ainda 14 agentes ativos usados em agrotóxicos que se espalham pelas lavouras brasileiras em reavaliação – muitos deles inclusive proibidos em outros países como os EUA e alguns Europeus – sob suspeita de prejuízos à saúde. As empresas do setor entraram na justiça para impedir a revisão e até o momento quatro elementos foram banidos.

“O problema é que o prazo entre a entrada de um produto novo no mercado, a constatação dos seus efeitos e a retirada, no caso de ele ser prejudicial, é muito grande. E os danos à saúde ou mortes causadas pelos agrotóxicos geralmente são em longo prazo, então fica difícil provar o nexos de causalidade. Claro que há produtos em que se pode afirmar isto e é estes que queremos banir”, ressalta Letícia, complementando que “não há estudos em nenhum lugar do mundo sobre os efeitos da exposição à mistura de agrotóxicos, mesmo que seja em lavouras sucessivas”.

Para ela, o que está em cheque é a possibilidade da população decidir se quer ou não consumir agrotóxico. “Hoje é praticamente impossível comprar um alimento sem agrotóxico, porque mesmo aqueles que são produzidos sem mostram índices de contaminação, que está em toda cadeia alimentar, na água e até no ar”.

Com isso, em 2009, mais de um bilhão de litros de venenos foram jogados nas lavouras, de acordo com dados do Sindag. O Brasil ocupa o posto de liderança no consumo desses produtos e, segundo dados do Movimento de Pequenos agricultores, se dividida a quantidade total de agrotóxicos utilizados em 2009 pelo número de habitantes do País, cada pessoa consumiu em média 5,2 kg de agrotóxicos ao longo do ano.

Horacio Martins de Carvalho, engenheiro agrônomo, avalia que este é um um novo modelo produtivo econômico, político e cultural, em que a patente dos genes e os Organismos Geneticamente Modificados fazem parte das estratégias comerciais das empresas para vender pesticidas. “O consumo mundial de agrotóxicos determina e é determinado pela combinação do controle privado das patentes de OGM e das fusões das empresas da área da indústria química”, explica.

Os números corroboram com esta avaliação. A Monsanto, por exemplo, tem hoje 25% do mercado brasileiro de sementes de hortaliças, segundo dados levantados pelo professor. Já um levantamento feito Sérgio Porto, da Conab, mostra que somente no cultivo de soja, um dos flancos dos transgênicos no Brasil, o uso de herbicidas passou de 142,16 mil toneladas, em 2005, para 226,82 mil toneladas no ano passado, um aumento de 60%. O custeio agrícola seguiu a expansão do uso de herbicidas, passando de R$ 4,82 bilhões, em 2005, para R$ 8,24 bilhões no ano passado.

“Os dados comprovam que não se usa menos agrotóxicos, nem se gasta menos, com os transgênicos, como os produtores costumam dizer. Pelo contrário, o uso de herbicidas, fungicidas e inseticidas só aumentou no Brasil”, conclui Porto.

O modelo é altamente concentrado: das 149 milhões de toneladas de grãos na colheita deste ano, 80% é de milho e soja e outros 10% de arroz. Ou seja, apenas 3 produtos dominam a produção brasileira de grãos. Isto gera uma insegurança alimentar que pode penalizar toda sociedade. “São Paulo é o Estado com maior insegurança alimentar em termos de demanda e oferta, uma vez que a opção pela cana-de-açúcar leva o Estado a trazer de fora grande parte dos alimentos”, complementa Porto.

A concentração em poucos produtos é acompanhada de uma concentração regional na produção. “A transição para um novo modelo é crucial e para isso a pressão social é necessária. O debate sobre a alimentação saudável e o modo com se produz deve ser um elemento central na união das lutas no campo e na cidade”, destaca Porto.

Os limites do novo Censo Agropecuário (*)

Sáb, 27 de Fevereiro de 2010 04:14 Ciência

Nós do MEPR publicamos recentemente em nossa página matéria de denúncia sobre a capitulação em relação à luta pela terra propugnada pelo principal dirigente e figura pública do MST, João Pedro Stédile, em entrevista concedida em janeiro último ao jornal Zero Hora.

Publicamos agora texto do geógrafo Ariovaldo Umbelino, questionando o Censo Agropecuário de 2006, divulgado recentemente. O texto mostra como os técnicos do IBGE não recuam ante artifício algum para maquiar a realidade e ocultar a questão da concentração da terra. Importante também é a denúncia da enorme quantidade de terras griladas no nosso país, terras devolutas pertencentes à União e apropriadas pelo latifúndio (um terço do território nacional!). Isso mostra que quem secularmente invade terras no Brasil não são os camponeses, mas sim os bandidos latifundiários. Importante também é a defesa do conceito de campesinato, varrido dos estudos oficiais e, importante dizer, varrido do discurso dos chamados “movimentos sociais” dentre eles o MST, e a substituição desse conceito científico e associado à luta pela radical transformação social por um esquálido “agricultores familiares” ou “trabalhadores rurais”. Ora, basta perguntar: o que prevalece no campo do nosso país são proletários rurais, reivindicando melhores condições de trabalho, ou um numeroso campesinato reivindicando a posse da terra?

Naquela oportunidade demonstramos a tentativa feita pela direção do MST de eludir o único fato decisivamente importante, e inquestionável, no que diz respeito a qualquer análise que se faça com respeito à questão agrária no Brasil: nosso país segue tendo os maiores índices de concentração da terra em todo o mundo e, longe de ter sido superada, a base latifundiária de nossa economia permanece no fundamental inalterada. E também inalterado o enorme peso político do latifúndio em todas as esferas de poder no nosso país.

E falar em concentração da terra é falar em duas conseqüências fundamentais, umbilicalmente relacionadas:

Em primeiro lugar não existe latifúndio sem massa camponesa. Esta serve tanto como permanente reserva de mão-de-obra barata para a produção latifundiária como de produtora de gêneros alimentícios (uma vez que os chamados “pólos do agronegócio” servem sobretudo à produção de commodities destinadas ao mercado externo). E esta relação latifúndio-massa camponesa necessariamente vem acompanhada da opressão violenta dos segundos pelos primeiros, na preponderância no campo brasileiro de relações semifeudais que se expressam através de todo tipo de coação extra-econômica (da qual o exemplo mais evidente são os “grupos de segurança”, verdadeiros exércitos particulares que os latifundiários possuem em todo o Brasil) e também na manutenção de arcaicas relações de produção, como a que se verifica nas condições e relações de trabalho que predominam no campo brasileiro.

Em segundo lugar esse enorme peso econômico tem como conseqüência a manutenção de enorme poder político do latifúndio, que jamais saiu do centro do aparelho de Estado no Brasil. Basta ver o que são o Congresso Nacional, aonde inclusive o monopólio de imprensa reconhece a bancada ruralista como a que predomina naquela “casa” (de tolerância...), o judiciário que através da figura abjeta de seu presidente, Gilmar Mendes, tem feito uma verdadeira cruzada em defesa das “reintegrações de posse” contra os camponeses e o Executivo que, presidido pelo oportunista Luis Inácio, não apenas não tem dado um passo sequer na direção de qualquer “reforma agrária” como tem mesmo desatado intensa e feroz repressão contra o movimento camponês organizado. Por isso dizemos: o Estado brasileiro é um Estado burguês-latifundiário e esperar uma “reforma agrária” institucional, bem comportada, sem luta, vinda desse mesmo Estado é no mínimo ingenuidade e não raro a mais crassa traição.

Essa a base da luta pela terra no Brasil. Enquanto existir sistema latifundiário e campesinato haverá, queiram alguns ou não, a luta pela terra. Esse é um fato objetivo, inquestionável, e não reconhece-lo é colocar-se contra a roda da história. Os camponeses reconhecem cada vez mais a impossibilidade de esperar sua terra através do INCRA ou do governo federal. Sabem que, se o Estado não fez e não fará reforma agrária alguma, o caminho é tomar as terras na marra. Essa bandeira já empunhavam as Ligas Camponesas nas décadas de 50 e 60. Essa bandeira empunha hoje a Liga dos Camponeses Pobres: é a Revolução Agrária.

A publicação desse texto do professor Ariovaldo, dessa análise baseada em fatos irrefutáveis da realidade logo após a fala de Stédile, de que mudou a luta pela terra, tem para nós grande importância. A luta pela terra não só não deixou de estar no centro da vida política do país (e o berreiro da reação, que tanto assusta Stédile, é simplesmente prova disso) como ganha contornos cada vez mais radicalizados com a impossibilidade das direções governistas, particularmente a do MST, seguir enganando incautos. É necessário aos vastos setores que defendem a luta contra o latifúndio, que se solidarizam com a massa camponesa, aos estudantes, intelectuais, ao proletariado, seguir como nunca apoiando essa luta e compreender que se alguns setores capitulam dela isso não pode deixar de ser um revés transitório, que será certamente superado com o fortalecimento de novas direções porque, a despeito de todas as bravatas e regateios, a história está do lado dos camponeses.

(*) Trata-se do Censo Agropecuário de 2006, cujos resultados foram tornados públicos pelo IBGE em setembro de 2009.


Os limites do novo Censo Agropecuário:

Escrito por Ariovaldo Umbelino *

10 de fevereiro de 2010

O Estado brasileiro não tem controle algum sobre seu território, aliás, nunca teve. O Incra deveria fazer periodicamente o recadastramento dos imóveis, mas não faz. O último foi feito em 1992 e atualizado em 1998. Nem os órgãos públicos nem os cartórios de registro de imóveis, ou seja, ninguém neste país é capaz de informar a parte das terras ocupadas legalmente e ilegalmente, ou melhor, as griladas. Nem mesmo o Estado é capaz de informar o total das terras públicas devolutas ou não.

Nunca um censo foi realizado no Brasil com tanta tecnologia avançada disponível. Tudo foi feito para que os resultados viessem a público rapidamente. Projetou-se um censo a fim de ser instrumento para o país conhecer o campo e planejar seu futuro. Entretanto, junto com os instrumentos digitais de coleta de dados, vieram os erros. Erros grosseiros que levaram o IBGE a adiar a divulgação, inclusive dos resultados preliminares, que foram muito mais dados da produção agrícola e pecuária municipal do que resultado efetivos do Censo 2006.

A análise geral do Censo Agropecuário 2006 revela três questões principais. Pela primeira vez, o IBGE se deu ao trabalho de comparar seus dados àqueles do Incra e mostrar suas diferenças conceituais das unidades estatísticas fundantes: estabelecimentos e imóveis.

O censo apresentou dados relativos ao conjunto do território brasileiro em hectares: área territorial total do país: 851,4 milhões; área total ocupada pelos estabelecimentos: 330 milhões; área total das terras indígenas: 126 milhões; área total das unidades de conservação ambiental: 72,3 milhões; área com corpos d’água: 12 milhões; e área urbanizada: 2,1 milhões. Mas a conta não fechou, ou seja, ficaram sobrando 309 milhões de hectares.

A solução adotada pelos técnicos do IBGE foi denominar esses 36% da superfície do país de "área com outras ocupações". No entanto, se eles incluíram todas as possibilidades de ocupação de fato, ficou faltando as "terras públicas devolutas". É isto mesmo: mais de um terço da área do país está cercada, mas não pertence a quem cercou. Os "proprietários" não têm os documentos legais de propriedade destas terras. Por isso, essas terras são omitidas nos levantamentos estatísticos tanto do IBGE como do Incra.

A segunda questão envolve o volume especial sobre a denominada "agricultura familiar". Essa conceituação tem sua origem no neoliberalismo. Nasceu com a intenção de apagar da memória e da história o conceito de camponês e o campesinato como sujeito social revolucionário do século XX. A função política desse volume é induzir a análise do campo pela lógica neoliberal, que esconde a dimensão dos estabelecimentos e, portanto, os indicativos analíticos da concentrada estrutura fundiária do país. Seu alvo preferencial são os movimentos sócio-territoriais em luta pela terra. Visou assim, retirar o seu mais potente elemento revelador da desigual distribuição da terra no Brasil. Foi transferida para as estatísticas a opção ideológica feita pelo governo atual. Nada contra o estudo em si, pois ele é legitimo. A questão está em torná-lo um volume do Censo 2006. (Grifo Nosso).

A terceira questão sinaliza a incômoda destruição gradativa do único instrumento estatístico de série histórica longa, que o país dispõe para conhecer sua realidade agrária. Basta comparar o volume de 2006 com o de 1995/1996, para ver que os técnicos atuais do IBGE sequer zelaram pela herança deixada pelos seus antecessores.

Um censo é um instrumento estatístico, por isso tem que sempre ampliar as possibilidades de desagregação dos dados, e não o contrário. Os técnicos do IBGE trataram de esconder ao máximo possível os dados da estrutura fundiária, particularmente as variáveis por estratos de área total. Ampliaram o que é positivo, a estratificação dos minifúndios, mas zelosamente agregaram os dados dos grandes estabelecimentos escondendo os latifúndios.

Ou seja, os estratos de área maiores chegavam a até 100.000 hectares no censo de 1995/1996. Foi reduzido para 2.500 hectares e mais. Foi uma no cravo e outra na ferradura. Deixaram também de divulgar a produção de vários produtos agrícolas por estrato de área total. Assim, impediram que se pudessem fazer estudos segundo esse critério, que revela o caráter da propriedade privada da terra, exceto se os interessados resolverem comprar os dados.

Sempre dominou no campo brasileiro o princípio da ilegalidade da ocupação das terras públicas pelos latifundiários. São esses 309 milhões de hectares de terras públicas devolutas ou não que somados aos 120 milhões de hectares de terras improdutivas dos grandes imóveis indicadas no primeiro documento do 2º Plano Nacional de Reforma Agrária (2003) que os sem terras não se cansam de denunciar. É por isso que os latifundiários travam combate sem trégua com os sem terras. E a maior parte da mídia acompanha e faz eco, mas os dados demonstram que a história está do outro lado, do lado dos sem terras.